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  Título
Militância, engajamento e autoria no cinema: notas exploratórias
Autor
Caroline Gomes Leme
Resumo Expandido
Se a questão da autoria no cinema é uma questão controversa, ela se torna ainda mais complexa quando se trata do chamado “cinema engajado” ou “militante”. De acordo com Jean-Claude Bernardet (1994), a emergência do “cinema militante”, notadamente a partir de 1968, marcou o declínio da “política dos autores” que, desde meados dos anos 1950, reivindicava os filmes como meio de expressão pessoal e artística do cineasta. No “cinema militante” – ou “de intervenção social”, ou “de ação política” –, a noção de autoria deixa de desempenhar papel fundamental e é sobrepujada pelo comprometimento do filme com a realidade social que se deseja transformar. Debates calorosos sucederam ao longo dos anos 1970 acerca do “lugar do autor” no “cinema militante” e, segundo Bernardet (1994), a “política dos autores” não resistiu. No entanto, Bernardet (1994, p.161) considera que “no fundo, a medula não foi atingida: o sujeito. Este não é negado; o que se lhe pede é que não se compraza no seu solipsismo, intimismo narcisista, e nas contradições e perplexidades pequeno-burguesas”.



Pierre Sorlin (1985) e Raymond Williams (2000) alertam sobre as armadilhas de se considerar o autor como dotado da autoridade de um “gênio criador”, fonte autônoma da produção cultural, em detrimento de se considerar o caráter grupal de produção do cinema e as condições sociais em que as obras são produzidas. Jean-Pierre Esquenazi (2004), por sua vez, traz uma proposta interessante de se pensar os filmes de maneira sociológica sem ignorar o papel do cineasta realizador. Ao analisar as obras de Godard em relação à sociedade francesa, ele propõe uma distinção analítica entre o cineasta como “ator social” e como “autor”. O “autor”, para Esquenazi (2004), não é absoluto e imutável, mas perpassado por uma multiplicidade de discursos – como os do “ator social” que “reivindica” significações para sua obra e os da crítica que interpreta seus filmes – e está em constante (re)construção.



Nas divulgações dos primeiros filmes de Renato Tapajós para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, conforme observa Silva (2008), o nome do cineasta foi omitido. Esse fato pode ser atribuído ao temor de perseguições em decorrência do “histórico” do cineasta, mas é necessário se investigar também a relação dele com o Sindicato e o papel assumido pelos filmes enquanto instrumentos de mobilização mais do que como expressões individuais do autor. A postura de João Batista de Andrade, por sua vez, parece conter uma reivindicação mais evidente de autoria e um distanciamento maior em relação ao “outro” filmado, isto é, entre o “intelectual-cineasta” e a massa operária.



Adota-se aqui, a princípio, a distinção entre engajamento e militância, esta compreendida como dedicação objetiva a uma causa política; aquele no sentido mais amplo de compromisso com a realidade social concreta, sem instrumentalização da obra a um objetivo político específico.



Ainda que diferenças nas posturas possam ser observadas na atuação social desses cineastas – João Batista ligado à tradição do PCB e Tapajós militante da luta armada na Ala Vermelha do PC do B e posteriormente ligado ao PT – é em suas obras fílmicas que, segundo entendemos, devem ser buscados os significados e proposições que não necessariamente refletem – podem até mesmo contradizê-los – os posicionamentos dos cineastas. Seja nas obras ligadas ao movimento operário, em que se percebe, em grau maior ou menor, um intuito de intervenção; seja nas obras posteriores, nas quais os propósitos “militantes” parecem menos diretos – como em "Nada será como antes, nada?" (Renato Tapajós, 1984) e "Céu aberto" (João Batista de Andrade, 1985) que tecem reflexões sobre o contexto de transição ao regime liberal-democrático – é essencial analisar em si a construção fílmica, entendendo que o filme não se reduz às “intenções” do cineasta. “Do filme surge algo que não estava antes, que só se encontra nesta combinação particular de imagens e sons” (SORLIN, 1985, p.97).

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das letras, 2003.

______. O autor no cinema. São Paulo: Brasiliense; USP, 1994.



BURTON, Julianne (Ed.), The Social Documentary in Latin America, Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, Latin America Series, 1990.



ESQUENAZI, Jean-Pierre. Éléments de sociologie du film. Cinémas: revue d'études cinématographiques, v. 17, n. 2-3, printemps, 2007.



______. Godard et la societe française des annees 1960. Paris: A. Colin, 2004 .



JORGE, Marina Soler. Imagens do movimento operário no cinema documental brasileiro. ArtCultura, v. 12, n.21, jul-dez.2010.



SILVA, Maria Carolina Granato da. O cinema na greve e a greve no cinema: memórias dos metalúrgicos do ABC (1979-1991). Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2008.



SORLIN, Pierre. Sociología del Cine. México: Fondo de Cultura Económica, 1985.



WILLIAMS, Raymond. Cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.