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  Título
Arte e política nos filmes A revolução de maio e Rojo y Negro
Autor
Mauro Luiz Rovai
Resumo Expandido
No último encontro da SOCINE, ocorrido em Recife, 2010, na mesa dedicada às relações entre cinema, política e sociedade no interior do Seminário temático intitulado “Cinemas em Português: relações, aproximações”, tive a oportunidade de apresentar uma análise do filme A Revolução de Maio (Portugal, 1937, direção de António Lopes Ribeiro, P&B, 134 minutos), aproximando-o do filme italiano Camicia Nera (Itália, 1933, direção de Giovacchino Forzano), obra que teria servido de inspiração ao filme português. A idéia era colocar os dois filmes no centro do debate sobre as relações entre arte, técnica e política nos anos 20 e 30. Para a SOCINE 2011, a proposta é continuar a tarefa de estabelecer relações e aproximações entre o cinema português e o de outros países, tendo agora como principal escopo identificar os possíveis diálogos com o filme espanhol Rojo y negro (Espanha, 1942, P&B, 80 minutos). Ainda que, diferente de Camicia Nera, não haja nenhuma relação imediata entre as obras de António Lopes Ribeiro e Carlos Arévalo, ambas dão particular destaque à figura do militante (ou se se preferir, do revolucionário / partidário da causa) e têm como pano de fundo a política dos dois países na segunda metade dos anos 30. A Revolução de Maio conta a história de Manoel, codinome Cesar, que volta a Portugal dez anos após os eventos de 1926. Revolucionário culto, inteligente e de bom senso, Cesar pouco a pouco reconhece as mudanças (para melhor) ocorridas no país nos últimos dez anos. No final do filme, a dureza da missão revolucionária, abrandada pelos números oficiais, a pureza da amada e o lema “Tudo pela nação. Nada contra a nação” atinge o ápice na tomada de posição pró-regime por parte da personagem César. Em Rojo y negro, por seu turno, a discrepância ideológica ocorre no interior do par românico: namorados desde criança, o rapaz se torna um fervoroso militante do lado republicano, a moça, uma “sóbria” defensora dos valores espanhóis, atuando no lado contrário ao do namorado. Diferente de César, que retorna a Portugal e encontra o amor e a inocência típicos da infância perdida, realizando uma fantasia de completude de forte matiz regressivo, no filme abertamente nacionalista Rojo y Negro a política causa a cizânia no par de namorados, na população espanhola e no país. Conquanto A Revolução de Maio traga imagens de arquivo que registram discursos feitos por Salazar (assim como o filme de Forzano, que trazia as de Mussolini), o que não acontece em Rojo y negro, a perspectiva deste trabalho é analisar esteticamente as duas obras, uma portuguesa e uma espanhola, de modo a juntar mais pistas dessa investigação mais geral, que busca dimensionar sociologicamente os resultados do encontro entre arte, técnica e política nas décadas de 30 e 40. O fio condutor das análises passará pelo fundo político que aparece em ambos os filmes, situado historicamente na segunda metade dos anos 30. Seja em Portugal, que, com Salazar, colocou fora do âmbito da política a discussão de temas como a “virtude”, a “Pátria”, a “história”, a “autoridade” e a “glória do trabalho”, seja na Espanha (a trama de Rojo y Negro se passa no início da Guerra Civil), que levou suas contradições para o campo de batalha.
Bibliografia

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