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  Título
A trajetória crítica de Almeida Salles: alguns apontamentos
Autor
Guilherme Seto Monteiro
Resumo Expandido
Contemporâneo de nomes como Alex Viany, Carlos Ortiz, Rodolfo Nanni, Benedito Junqueira Duarte, Moniz Vianna e Rubem Biáfora, Francisco de Almeida Salles (1912-1983) foi um dos críticos mais eminentes do grupo que se convencionou chamar de “críticos cosmopolitas”, “universalistas” ou “esteticistas”, ao lado de Duarte e Biáfora. No entanto, dentre os nomes listados acima (exceção feita a Biáfora), Salles parece ter sido o único que não teve trabalhos de pesquisa que tomassem sua produção como objeto de análise. Além disso, temos somente uma pequena amostra de sua vasta produção na coletânea "Cinema e verdade", que mesmo contando com alguns textos representativos, teve seu caráter de seleção contestado por um pesquisador de porte como Jean-Claude Bernardet. O acesso à sua produção está praticamente restrito àqueles dispostos a descobri-la no acervo da Cinemateca Brasileira.

Sua trajetória social possui momentos peculiares. Nascido em Jundiaí em 1912, passa sua infância em cidades do interior paulista, até se mudar para a capital em 1927, onde se aproxima de Plínio Salgado, Roland Corbisier, e da Ação Integralista Brasileira. Na década de 1930, realiza o curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco. Na década seguinte, sua atuação enquanto crítico e homem político ganha contornos mais bem definidos. Começa escrevendo para O Diário de S. Paulo, em 1943, e termina vinculado a O Estado de S. Paulo, onde ficará de 1949 a 1962; participa do Primeiro Clube de Cinema de S. Paulo, e é nomeado presidente do Segundo Clube de Cinema, em 1941 e 1946, respectivamente. No mesmo período, atua no grupo anticomunista União de Resistência Nacional, e assume o cargo de consultor jurídico do Conselho Administrativo do Estado. Na década de 1950, enquanto escreve para o jornal, acumula múltiplas funções institucionais, como presidente da Cinemateca Brasileira, membro de diversas Comissões de Cinema municipais e federais, etc.. Como o próprio atesta em entrevista (SALLES, 1988: pp. 325-6), suas atividades na esfera institucional do cinema e como funcionário público de alto escalão encurtaram sua trajetória de crítico cinematográfico – de meados da década de 1960 em diante, Almeida Salles será apenas homem político, atuando em diversas organizações e festivais de cinema, além de ascender em sua carreira pública, até o topo em 1983, quando assume a pasta de Cultura do governo de Franco Montoro.

O ponto de interesse de minha apresentação é o de recuperar aspectos da produção crítica original de Almeida Salles, lançando mão do que pude apreender na consulta a seus textos na Cinemateca. A articulação de conceitos como “autenticidade”, “artificialidade”, “organicidade” e “continuidade” ocupa função central num modelo analítico com preocupação diferencial com os problemas do uso da técnica cinematográfica. Admirador de cineastas como Hitchcock, Lang, Sternberg, Wilder, Siodmak, Welles e A. Cavalcanti, dotados da “credencial revolucionária”, ele não poupa nomes que algum desavisado poderia deduzir que seriam de seu gosto: Nicholas Ray, Powell e Pressburger e Terrence Young são “maus pretensiosos”, “faroleiros”, chegados a “virtuosismos”, “enfeites de angulação” e “malabarismos formais” – cinema “artificial”. O crítico atesta que “a prova da autenticidade seria a correspondência ou a funcionalidade da linguagem com o seu conteúdo” (SALLES, 1952): o filme “autêntico” seria aquele capaz de utilizar de maneira “orgânica” a técnica, promovendo a “continuidade” no resultado final – “a obra de cinema não pode usar seus recursos e processos arbitrariamente, como enfeites formais adjetivos, mas deve dissolvê-los num conjunto expressivo indissolúvel, onde o que se saliente seja o tema e não a maneira de expressá-lo. Como colocou Carlos Calil, Almeida Salles foi um “ardoroso cultor da transparência” (1988, p. 11). A maneira original como erigiu sua mirada crítica de valorização do cinema clássico e transparente deverá ser nosso objeto de discussão.
Bibliografia

AUTRAN, Arthur (2003). Alex Viany: crítico e historiador. São Paulo, SP: Perspectiva.

BOURDIEU, Pierre (1998). Les règles de l´art. Paris: Éditions du Seuil.

CATANI, Afrânio (1991). Cogumelos de uma só manhã: B.J. Duarte e o cinema brasileiro. Tese de doutorado. FFLCH-USP. São Paulo, SP.

_____. (2001). “A constituição do campo cinematográfico em São Paulo nos anos 40 e 50”. Em: RAMOS, Fernão; MOURÃO, Maria Dora; CATANI, Afrânio; e GATTI, José (org.). Estudos de cinema 2000 – SOCINE. Porto Alegre, RS: Sulina.

SALLES, Francisco de Almeida (1952). “Características da direção em cinema”. Em: O Estado de S. Paulo, 06 de agosto de 1952.

_____. (1952). “O terceiro homem”. Em: O Estado de S. Paulo, 21 de outubro de 1952.

_____. (1988). Cinema e verdade: Marilyn, Buñuel, etc. por um escritor de cinema. São Paulo, SP: Cia. das Letras.

SOUZA, José Inácio Melo de (1996). A carga da brigada ligeira: intelectuais e crítica cinematográfica, 1941-1945. Tese de doutorado. ECA-USP. São Paulo, SP.