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  Título
CM e EB: congruências no cinema moderno pós-1968
Autor
Estevão de Pinho Garcia
Resumo Expandido
A passagem da década de 1960 para a de 1970 significou um momento fundamental para a cultura cinematográfica e representou uma evidente mudança de paradigmas e uma substancial reavaliação dos modelos estabelecidos e defendidos na década anterior. Determinadas posturas e conceitos manejados pelo cinema moderno começaram a ser questionados. Novas proposições a respeito da criação de imagens e de seu vínculo com a “realidade” apareceram neste contexto. Essa nova maneira de se relacionar com o cinema e de relacionar o cinema com o mundo implicou uma redefinição das relações estabelecidas entre cinema e sociedade e entre cinema e política. Tal processo em direção à um novo olhar frente a interação entre a arte e as questões de seu tempo começa a se tornar mais nítido, segundo Francesco Casetti, a partir de 1968. É exatemente nesse contexto histórico que surgen duas correntes modernas, uma no Brasil e outra na Espanha, que conectadas praticamente às mesmas influências, promovem uma grande reviravolta no interior de suas respectivas cinematografias(ambas, cinematogrias "periféricas"). Essas duas vertentes são o Cinema Marginal (CM) e a Escuela de Barcelona (EB).



A principal referência em comum é sem dúvida o primeiro Godard, que podemos pontuar como o de "À bout de soufle" (1959) a "Made in USA" (1966). Tal influência aparece sobretudo no caráter subversivo da profanação das regras do cinema clássico e na auto-reflexividade. É comum, tanto no CM como na EB a presença de propostas de articulação reflexiva entre o enunciado e a enunciação. A presença da fonte produtora que está por detrás do discurso é freqüentemente denunciada. O cinema apresenta a consciência de ser cinema e não pretende estabelecer nenhuma relação mimética com a realidade. Também encontramos nas duas correntes um grande número de citações que, muitas vezes, provêm da mesma fonte.



Se tanto o CM como a EB surgiram em um momento de crise dos Cinemas Novos, este fator se relaciona diretamente às suas relações com os movimentos que os antecederam: o Cinema Novo brasileiro e o Nuevo Cine Espanhol, respectivamente. Tanto o Cinema Novo como o Nuevo Cine Espanhol definiram o cinema de seus jovens “sucessores” com os mesmos adjetivos: alienado, esteticista, reacionário,desideologizado.Por tanto, eis aqui uma semelhança fundamental: ambos são uma reposta a movimentos precedentes.



Outros aspectos comparativos podem ser abordados, como a relação estabelecida entre a EB e o CM com as outras artes. La EB cinematográfica se relacionou com as EB de outros campos: moda, arquitetura, desenho, publicidade. Por sua vez o CM estava intimamente conectado aos Tropicalistas da música: Caetano Veloso e Gilberto Gil, do teatro: o Grupo Oficina de José Celso Martínez Corrêa. Assim como a artistas plásticos de vanguarda (Helio Oiticica, Lygia Clark, Cildo Meirelles),a poetas e letristas (Torquato Neto, Waly Salomão), a críticos e teóricos da estética (Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari).Também podemos mencionar a compartilhada incorporação de elementos considerados pouco nobres ou de “baixa cultura”: a música pop, os quadrinhos, o cinema de gênero, a pop-art e a publicidade. Em outras palavras: a relação com a cultura de massa. E também o diálogo com a contracultura e o happening. Embora não seja o enfoque principal de nosso trabalho, a comparação de procedimentos estéticos e formais que pretendemos realizar entre os dois grupos de filmes não deixará de considerar as particularidades históricas de cada contexto estudado.
Bibliografia

BRETÓN,Juan A. Martinez, La denominada Escuela de Barcelona, Madrid: Ed. De la UCM, 1984.

CASETTI, Francesco, Teorías del cine, 1945-1990,Madrid: Cátedra, 1994.

MONTERDE, José Enrique, HEREDERO, Carlos F.(Org.), Los “Nuevos Cines” en España, Ilusiones y desencantos de los años sesenta, Valencia:Filmoteca Española, 2003.

PERRUCHA, Julio Pérez (Org.), Antología crítica del cine español 1906-1995, Madrid: Cátedra, Filmoteca Española, 1997.

RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968-1973) A Representação em seu Limite, São Paulo: Brasiliense, 1987.

RIMBAU,Esteve,TOREIRO,Casimiro,La Escuela de Barcelona: el cine de la gauche divine, Barcelona: Anagrama,1999.

XAVIER, Ismail. Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal,São Paulo: Brasiliense, 1993.

______________,O cinema brasileiro moderno,São Paulo:Paz e Terra,2001.

______________,O cinema marginal revisitado, ou o avesso dos anos 90 in Catálogo Cinema Marginal brasileiro e suas fronteiras,SP:CCBB,2002.