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  Título
Taxonomia das séries audiovisuais: uma contribuição de roteirista
Autor
Iara Sydenstricker
Resumo Expandido
Conceitos de Série, Seriado, Série serializada, Série episódica, Série enovelada, Seriado fechado, Seriado aberto, Série antológica, Capítulo, Episódio, dentre outros concorrem para criar um caos semântico que pouco contribui para a análise dos programas audiovisuais serializados. Sem qualquer pretensão de equacionar problema de tal monta, aposto nas perspectivas oferecidas pela dramaturgia para entrar nesse debate. Inicio compartilhando com Mendes (2010) a idéia de que a palavra seriado é “um adjetivo substantivado que foi tomando o lugar do termo próprio ‘série’”, processo que sinonimizou as duas palavras. Significam, para fins desta análise, a mesma coisa.

Embora não logrem distinguir com especial rigor as diversas nomenclaturas dadas aos programas serializados, Buonanno e Bechelloni destacam a importância de suas unidades constitutivas como aspecto a ser considerado em sua classificação: capítulos nos “seriados”; episódios nas “séries” e nas “séries episódicas” e; um misto de capítulo e episódio na “série serializada”. Assim, uma das grandes contribuições dos autores em relação a outros estudiosos do campo, está em valorizar a estrutura dramatúrgica das “fatias” desses programas (episódios, capítulos ou um misto de ambos), o que remete, por conseqüência, ao ofício do roteirista especializado na escrita de suas várias fases e devidos graus de detalhamento, como bíblias (painel geral), macro-escaletas de temporadas, escaletas de temporada e de episódio e respectivo roteiro.

Se telenovelas e minisséries, herdeiras do folhetim, são constituídas por capítulos, unidades narrativas não independentes e organizadas numa determinada sequência, séries/seriados podem abrigar capítulos, episódios e/ou unidades que combinem qualidades de ambos, como querem Buonanno e Bechelonni. A essas unidades nomeio capisódios, escritos em pelo menos duas camadas: uma para deleite do telespectador que desconhece o programa, mas está familiarizado (mas às vezes, não) com o ritmo e as estratégias dramatúrgicas das séries e; outra para o telespectador fiel ao programa, guardião de sua memória, “graduado” a ponto de saber que nem tudo será resolvido ou explicado numa única exibição. Esse último sabe que os fatos estão conectados, estruturados em redes mais ou menos complexas, muitas vezes como rizomas (DELEUZE; GATARRI, 1985) erigidos a quatro mãos: pelo autor e pelo espectador co-autor no fluxo de narrativas transmidiáticas, como quer Jenkins (2005).

Para Thompson (2003), a ilusão de densidade dramatúrgica dos seriados pode ser explicada por diversos fatores: a substituição do antes exclusivo episódio fechado pelo capítulo (ou capisódio); a multiplicidade de tramas associadas a arcos mais longos de história, o que tem permitido muitos arranjos entre grandes números de personagens, temporalidades e, por conseguinte, espacialidades. Segundo Starling Carlos (2006), um dos motivos para que uma serie assuma maior complexidade dramatúrgica reside em sua longa duração, que permite “ampliar o número de personagens, desenvolver suas personalidades, temperamentos e ações em um nível extremo de detalhe e, ao mesmo tempo, estabelecer inúmeros laços dramáticos entre eles [...] (p. 26). Ainda de acordo com o autor, um dos “segredos” da longevidade das séries está justamente na perspectiva de sua transformação, proporcionada não só pela longa duração, como pelo envelhecimento de três de seus “agentes”: o telespectador, o ator e o personagem, aos quais somo o autor. Um quádruplo envelhecimento, portanto.

Há, certamente, outros elementos constitutivos dos programas serializados que permitem determinar suas especificidades ou singularidades. Para o roteirista, contudo, importa dominar os princípios da dramaturgia, as estruturas dos programas seriados e as estratégias de espraiamento de suas narrativas, conciliando experiência, criatividade e talento com imposições empresariais, inovações, renovações (e repetições) e alterações de padrões e regras vigentes.

Bibliografia

BUONANNO, Milly; BECHELLONI, Giovanni. Il Campo. Observatorio sulla fiction italiana. http://www.campo-ofi.it/glossario/index.php. Acesso em: 28 de mar. de 2011.



DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995. v. 1.



JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2008.



MENDES, Cleise. RES: Capítulos, episódios... [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por em 19 jan. 2010.



STARLING, Cássio. Em tempo real: Lost, 24 horas, Sex and the City e o impacto das novas séries de TV. São Paulo:Alameda, 2006.

THOMPSON, Kristin. Storytelling in Film and Television. Cambridge/Massachussets/ London: Harvard University Press, 2003.