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  Título
A sonata de Bresson
Autor
Luíza Beatriz Amorim Melo Alvim
Resumo Expandido
O cineasta francês Robert Bresson ficou conhecido pela parcimônia com que utilizou a música em seus filmes. Uma forma pela qual isso se deu foi com a utilização de pequenos trechos de música do repertório clássico pré-existente (utilizaremos clássico no sentido de “erudito”, de “música de concerto”), característica comum aos diretores que Claudia Gorbman (2007) reúne como responsáveis por uma “música de autor”. Consideramos, portanto, que tal conceito também se aplica ao cinema de Bresson.

Nos filmes da fase intermediária de sua carreira, esses trechos de música clássica eram ouvidos de forma extradiegética e há como que uma analogia entre as formas musicais das obras utilizadas e as formas e conteúdos dos filmes, sendo os trechos selecionados a partir de procedimentos musicais como repetição e variação.

É o que acontece em "A grande testemunha" (Au hasard Balthazar, 1966), com o Andantino da sonata D959 de Franz Schubert. Neste filme, há dois personagens principais, o burrinho Balthazar e a jovem Marie, como dois fios condutores narrativos (HANLON, 1986). A cada um deles corresponderiam dois temas do Andantino (A e B, o segundo, uma modulação de A), que se repetem ao longo do filme em sua totalidade ou parcialmente. Como no bi-tematismo da forma-sonata expresso na sua forma A-B-A´, esses personagens e as relações que eles tecem entre si são expostos, desenvolvidos e re-expostos. Embora a forma A-B-A´ seja característica dos primeiros movimentos das sonatas e o Andantino seja o segundo, achamos coerente essa análise em alusão à forma-sonata e também as alusões à obra como um todo de Schubert.

Assim, no início do filme, vemos a infância de Balthazar e Marie e o carinho da menina pelo burrinho; no seu decorrer, os personagens sofrem várias modificações: Balthazar passa por vários donos, e Marie se aproxima de Gérard, rapaz de má índole responsável por alguns dos mal-tratos ao burrinho; finalmente, eles são re-expostos, sendo o destino dos dois também aproximado: Balthazar morre na natureza, na montanha onde nasceu no início do filme, e Marie também se afasta da cidade e de Gérard, talvez em busca dessa montanha onde, quando criança, encontrara Balthazar.

O tema A de Balthazar é quase como a “voz do burrinho”. É interessante que em outros filmes de Bresson dessa fase, como "Um condenado à morte escapou" (1956) e "Pickpocket" (1959), a voz over seja um recurso fundamental e Jean Sémolué (1993) lembra que Bresson havia pensado em fazer do filme “o diário de um asno”, cuja voz seria a do próprio diretor. Por outro lado, se observarmos que as sonatas de Schubert se nutriam muito do Lied – forma de canção germânica baseada em poemas pré-existentes – sugere-se ainda mais essa relação da voz de Balthazar com o tema musical. Jean-Louis Bory (1966) observa, já a partir dos créditos do filme em que o zurro de Balthazar interrompe a execução da sonata, que Bresson nos convida a passar do zurro (o plano das aparências) à sonata (o plano da verdade).

Outras características do Lied de Schubert e suas relações com a poesia romântica presentes no filme são: a natureza – embora ela seja no filme marcada pela crueldade, como influência dos livros de Georges Bernanos, adaptados por Bresson em "Diário de um padre" (1951) e "Mouchette" (1967) -; o espírito de "Wanderschaft" do Romantismo (o andar ao léu) correspondente às andanças de Balthazar, quando ele é usado para transportar turistas na montanha; e as imagens da morte, predominantes tanto na música de Schubert (ADORNO, 1982), como no filme.

Já o tema B de Marie é uma modulação para o modo maior, o que sugere uma esperança de felicidade para a jovem. Com efeito, o tema B é ouvido quando ela reencontra Balthazar, uma doce lembrança de sua infância, e nas suas experiências amorosas com Gérard. Porém, assim como na música logo se volta do modo maior para o tom menor principal, a influência da maldade de Gérard também tornará trágico o destino de Marie.

Bibliografia

Livros:

ADORNO, Theodor. Schubert. In: Musikalische Schriften IV. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1982.

BORY, Jean-Louis. Balthazar ou du braiement à la sonate. Arts et loisirs, n.36, jun, 1966

CHION, Michel. L’audio-vision. Paris : Nathan, 1990.

GORBMAN, Claudia. Auteur music. In : GOLDMARK, Daniel, KRAMER, Lawrence, LEPPERT, Richard (org). Beyond the soundtrack: representing music in cinema. Los Angeles: University of California Press, 2007.

HANLON, Lindley. Fragments: Bresson´s Film Style. New Jersey: Associated University Presses, 1986.

PATIER, Dominique. Le promeneur solitaire. Paris: Gallimard, 1994.

SÉMOLUÉ, Jean. Bresson. Paris: Flammarion, 1993.

Filme:

A grande testemunha (Au hasard Balthazar), Robert Bresson, 1966.