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  Título
Crítica Genética Cinematográfica: métodos, fronteiras e transposições
Autor
Sônia Maria Oliveira da Silva
Resumo Expandido
Se “documentos de processo” de uma realização cinematográfica é tudo aquilo que detém traços do processo de criação do filme, como classificar os making of dirigidos, os “extras” com entrevistas fabricadas pela produção comercial, as anotações guardadas para divulgação da obra, as notas de compra de equipamentos ou de pagamentos dos cachês cuidadosamente conservadas e mantidas à espera de interessados ? A pergunta pode ser reformulada: a intencionalidade presente na “confecção” de um “documento de processo”, no âmbito cinematográfico, anula todo e qualquer índice do gesto criador do autor ? Ou este, de qualquer modo, acaba por atravessar as diversas camadas de uma estrutura mercadológica bem arregimentada, ressurgindo, aqui e acolá, nas brechas do discurso de ator ou do próprio diretor?



Pensamos que o problema pode ser recolocado ainda de uma maneira distinta: quais são os limites que deve impor-se o geneticista cinematográfico quando da construção de um dossiê genético ? Se o objetivo é retraçar as etapas de transformação da obra cujo processo de criação é marcado pela acumulação (de cenas, de sequências, de enquadramentos) e pela seleção (da melhor cena, da mais adequada sequência) e, enfim, pela montagem, convém limitar-se ao processo da obra em questão. E evitar extravagantes articulações que possam acabar resvalando em análises biográficas dos artistas envolvidos no processo.



Esse é um recorte que deve ser levado em conta. Mas que existe para ser redimensionado. É que sobre alguns processos pode incidir uma intertextualidade tamanha a ponto de, efetivamente, surgirem fortes associações entre, por exemplo, as marcas do processo criativo de uma atriz para um determinado filme e os primeiros trabalhos que remontam ao tempo de sua formação.



O objetivo da presente comunicação é discutir alguns aspectos, caracterísitcas e metodologias da pesquisa em Crítica Genética Cinematográfica. Para tanto, propomos, num primeiro momento, dar um panorama geral sobre as principais tendências na area, tomando como referência as pesquisas desenvolvidas no ITEM (Institut des Textes et Manuscrits Modernes).



Num segundo momento, abordaremos alguns elementos do processo de criação da atriz Delphine Seyrig para o filme O Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961). Ressalte-se que as discussões levantadas aqui originam-se numa pesquisa mais ampla que analisa os documentos de processo de criação da atriz, material depositado no Fonds Delphine Seyrig, na Bibliothèque Nationale de France (BNF). A ideia é verificar como se dá a trasnformação, não somente da obra em sua unidade material (o filme, o espetáculo) mas na totalidade de uma carreira.

Bibliografia



ANO PASSADO EM MARIENBAD (O). Alain Resnais, França, 1961.

AMOUR EN PAPIER (L’). Louis Ducreux, França, 1952.

FERRER, D. A Crítica Genética do século XXI será transdisciplinar, transartística e transemiótica ou não existirá. In : ZULAR, Roberto (Org.) Criação em processo – ensaios de Critíca Genética. São Paulo : Iluminuras, 2002. pp. 203-217.

FERRER, D. e BOURGET, J.-P. (orgs.). “Genesis” : Revue Internationale de Critique Génétique. ITEM (Institut des Textes et Manuscrits Modernes), n° 28, Paris, 2007.

ROBBE-GRILLET, A. O Ano passado em Marienbad. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1988.

SALLES, C. A. Crítica Genética. Fundamentos dos estudos genéticos sobre os processos de criação artística. São Paulo : Educ, 2008.





Arquivos



Fonds Delphine Seyrig, Bibliothèque Nationale de France (Département des Arts du Spectacle), Paris, 2002.