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  Título
A representação da classe trabalhadora em Cabra marcado para morrer
Autor
Rodrigo Oliveira Lessa
Coautor
Antônio da Silva Câmara
Resumo Expandido
O intervalo entre a década de 1960 e meados dos anos 1980 compreende um dos períodos estética e intelectualmente mais densos da história do cinema brasileiro. Nesta fase, fenômenos como o processo de transição de um Brasil rural para um Brasil cada vez mais urbano – com a aceleração da industrialização –, a emergência de uma política nacional-desenvolvimentista e a experiência do regime militar acirraram os debates entre os grupos sociais que buscavam pensar as características e os destinos da nação, bem como a natureza e o comportamento de seu povo, o que se intensificou a partir da influência de estilos cinematográficos emergentes como o neo-realismo a nouvelle-vague. Aliada a esta tendência conjuntural, o cinema documentário brasileiro também abrigou uma transformação no seu modo de representar as questões sociais. Neste período, consolidam-se os estilos do Cinema Direto e do Cinema Verdade, que trazem novos dilemas relativos à enunciação e à constituição da subjetividade na construção e produção de imagens de documentários responsáveis por impor críticas contundentes à forma tradicional de representação do gênero. (RAMOS, 2008).

Na década de 1980, quando estas questões se encontravam já em vias de maturação, Cabra Marcado retrata a viagem de retorno do diretor Eduardo Coutinho ao Engenho Galiléia, em Pernambuco, para um reencontro com os personagens de um filme ficcional interrompido pela Ditadura Militar. Em seu modelo narrativo, o filme apresenta uma estética abertamente auto-reflexiva destinada a abrigar o contato entre o diretor, como um dos personagens do filme, e os ex-militantes das Ligas Camponesas. Nele, podemos perceber não só elementos que podem ser identificados como componentes de consciência de classe no discurso dos camponeses e os efeitos da repressão da Ditadura Militar sobre os movimentos sociais no campo, mas também como a visão crítica sobre a postura de representar os problemas sociais do Brasil leva Coutinho à relativização da posição política dos militantes camponeses e à tentativa de esvaziar um discurso politizado que se firmava na experiência da luta social das Ligas Camponesas.

No âmbito da sociologia, autores como Lukács (1982), Walter Benjamim (1985), Adorno (1985) e Fredric Jameson (1993, 1995) situam o filme como uma expressão artística que é, ao mesmo tempo, um produto e um instrumento de reflexão do seu próprio tempo. Ademais, soma-se a isso o fato de o cinema corresponder a uma das mais recentes formas de arte na história, o que aponta para uma vivência tardia das experiências estéticas já percorridas anteriormente e em períodos relativamente curtos de incorporação das práticas culturais e inquietações pré-existentes no campo artístico.

Isto nos põe em condições de buscar na Arte Moderna, que tem seu auge na virada do séc. XIX para o séc. XX, elementos estéticos que estarão presentes nas opções incorporadas ao filme. É que segundo Theodor Adorno (2008), na Arte Moderna os ideais de liberdade, autonomia e emancipação no trato dos conteúdos presentes na realidade, ao lado de uma guinada rumo à própria subjetividade do artista, serão os motes para um processo que, se, no início, efetivamente havia contribuído para o avanço e a complexidade das formas estéticas, no seu desenvolvimento levou também à incerteza sobre o direito de existência da arte, a uma fuga em relação à problematização dos antagonismos sociais – que de uma forma ou de outra voltariam a assombrar a criação – e a reprodução ideológica dos costumes de uma sociedade que gradualmente se tornava menos humana. Assim, a auto-reflexidade, a relativização dos discursos políticos e as incertezas sobre o caráter de representação do documentário são elementos recorrentes em Cabra Marcado que nos remetem ao estudo das influências da Arte Moderna sobre estas estratégias estéticas, contribuindo para uma maior compreensão de um momento central para o desenvolvimento do documentarismo brasileiro.

Bibliografia

ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Lisboa: Edições 70, 2008.

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

In,: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 165-197.

JAMESON, Fredric. As marcas do visível. Rio de Janeiro: Graal, 1995.

______. Espaço e Imagem: teorias do pós moderno e outros ensaios. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1993.

LUKÁCS, Georg. Estética I: la peculiaridad de lo estético. Barcelona: Grijalbo, 1982. Vol. 1.

RAMOS, Fernão. Mas afinal…o que é mesmo o documentário?. Senac: São Paulo: 2008.