/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Formas simuladas: os gêneros nos filmes de bordas
Autor
Gelson Santana
Resumo Expandido
No cinema de bordas toda expressão estética está de alguma forma centrada na espectatorialidade. E é esta experiência espectatorial que determina os efeitos expressivos das construções narrativas. Por conseguinte, pode-se dizer que existe uma "espectarialidade ativa" que determina duas vias: uma primária que parte dos fenômenos que organizam os gêneros no cinema; outra secundária responsável por uma apreensão estética dos fenômenos expressivos. O caráter básico da cultura brasileira determina que as matrizes que dão representação as formas expressivas são primordialmente orais. A partir deste contexto oral as determinações imaginárias de sentido ganham dimensão e modelam as construções expressivas.

Portanto, a aderência aos processos expressivos determina o modelo de representação que vai tomar forma nas narrativas. Isso quer dizer que uma acoplagem entre imaginário local e gêneros expressivos caracteristicamente globais toma forma na produção de bordas no Brasil. Desse modo, a atualidade expressiva nos filmes de bordas depende do espelhamento do imaginário local dentro de um contexto globalizado indireto de imagens e a emergência de efeitos está vinculada diretamente aos processos locais de organização de sentido.

A emergência de um caráter estético nos filmes de bordas depende do efeito local que constitui a experiência e o resultado simbólico que as produções narrativas engendram. Neste sentido, existem estratégias de acoplagem entre imaginários locais e representações globalizadas, e estas estratégias visam a um efeito local dentro do espaço de atualidade que dá forma as narrativas. Esta acoplagem depende diretamente de uma conjunção entre as corporalidade locais e as corporalidade imagéticas. Neste caso, o atual entre estas representações e a produção de sentido está no caráter disjuntivo de seus efeitos. O atual apresenta-se não como efeito estético, mas como experiência imaginária.

Por isso, neste jogo de conjunção, os filmes de bordas não apresentam uma autonomia das realidades locais, eles a simulam não como uma decorrência expressiva, mas como um efeito e, por isso, estão calcados na imagem da experiência e não na experiência da imagem. A imagem da experiência procura ser uma espécie de encobrimento das estratégias narrativas. Nos filmes de bordas a ficção funciona muito mais como uma simulação do que como um efeito estético. Esta simulação joga diretamente com a espectatorialidade ativa, neste sentido ela constitui a experiência de mundo a ser alcançada.

Para tanto, apesar de ficcionais, os filmes de bordas buscam a expressão do global no espaço local. Eles estendem a percepção local. Estes filmes procuram atualizar o imaginário local através da experiência de produção de sentido calcada na imagem e não nas representações simbólicas. As coordenadas representativas são os traços dos gêneros canônicos que o cinema de bordas agencia. Muitos desses traços se misturam a realidade local produzindo efeitos a partir do imaginário global. O que torna único os filmes de bordas é a transformação que eles negociam nas comunidades em que são produzidos, eles transformam a experiência simbólica local em acontecimento. Neste sentido, como acontecimento, estes filmes são capazes não de dizer claramente seu tempo de produção, mas de atuar diretamente nele.

Isso faz com que os filmes de bordas agenciem o mundo midiático como a experiência atual a qual comunidade se faz pertencer através de seus efeitos ficcionais. De qualquer maneira, no território dos acontecimentos esta ficcionalidade não representa diretamente o efeito estético da experiência com o ficcional, mas diretamente uma experiência de sociabilidade ficcional.

Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: BFI, 1999.

GRILO, João Mário. A ordem no cinema. Lisboa: Relógio d'Água, 1997.

SANTANA, Gelson (org.). Cinema de Bordas 2. São Paulo: A lápis, 2008.

SMITH, Murray. "Espectatorialidade cinematográfica e a instituição da ficção". In: RAMOS, Fernão Pessoa (org.). Teoria contemporânea do cinema, vol. 1. São Paulo: Senac, 2005, pp. 141-169.

TURNER, Graeme. Cinema como prática social. São Paulo: Summus, 1997.