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  Título
Na periferia nada se copia tudo se recria: gêneros em filmes de bordas
Autor
Bernadette Lyra
Resumo Expandido
A experiência do cinema, desde os primeiros tempos, sempre oscilou entre a ânsia de novidades, cada vez mais atualizadas dentro da própria constituição do meio, e a expectativa de certa estabilidade formal que garantisse a adesão por parte dos espectadores. Aliás, foi com base nessa necessidade de repetir e inovar que o cinema se estruturou permanentemente como uma instituição do setor de entretenimento.

Neste trabalho, antes de tudo, quero ancorar a noção de gênero nesse duplo contexto de necessidades do novo e da continuidade, partindo da hipótese que a noção de gênero no cinema está assim estritamente vinculada a certos sistemas de produção, difusão e recepção de filmes.

É preciso, também, observar que o gênero se constitui em um produto teórico proveniente desses mesmos sistemas e, nesse caso, representa uma sua instância de racionalização.

“O gênero funciona perante a instituição cinematográfica à maneira de um meta-objecto: revelando-se na actualidade dos filmes – construindo-se e refinando-se, a partir deles – não deixou, por isso de ultrapassá-los, em certa medida, de precedê-los” (GRILO, 1997, p.145).

Dentro desse pensamento, a noção de gênero pode ser vista não apenas como uma aplicação às diferenças e particularidades de cada filme (que, aliás, não se sobrepõem às combinatórias e diluições genéricas), mas também, de modo geral, como a emergência de uma determinada forma comunicativa singular materializada pelo cinema. Assim, pode-se dizer que o cinema de bordas, em suas relações com o cinema no Brasil, constitui uma topografia que se afirma não como um lugar de proveniência e fim de algo, mas sim uma terra de convergência para todas as orgias do imaginário cinematográfico periférico que inclui produção, realização, exibição e recepção de filmes e que vagueia pelo país afora repleto de heróis de histórias em quadrinhos, de filmes de ação, de comédias românticas, de imagens de lutas marciais, de filmes de horror, de esquetes de programas televisivos,de histórias populares, enfim, de tudo aquilo que se constitui e se estrutura como uma desmesurada gag cultural feita de fragmentos imagéticos de segunda mão e embalada por um poupurri de músicas retirada de outros filmes e produtos audiovisuais.

Mas, é preciso levar primordialmente em conta que os filmes de bordas brasileiros servem a um cinema em que tudo se faz sobre a necessidade de negociar entretenimento com o público e não de educá-lo ou de instruí-lo e, sobretudo, sobre a necessidade de adaptar os gêneros cinematográficos a uma “brasilidade” que, apesar da retomada de padrões genéricos e de modelos, alguns até mesmo já algo desgastados em certos tipos de filme, sobretudo americanos, nada tem de cópia dos modelos estrangeiros, mas sim de uma recriação específica, remixada e readaptada.

A partir dessas proposições, neste trabalho, pretendo examinar dois filmes de bordas brasileiros que realizam essa clivagem de elementos apropriados livremente de outros e variados espaços cinematográficos e audiovisuais, sendo que. cada qual faz isso à moda de sua região. São estes filmes: O galo da madrugada, de Sandra Ribeiro (1998) de Recife, Pernambuco, e A gripe do frango, de Seu Manoelzinho ( 2008), de Mantenópolis, Espírito Santo.

Bibliografia

BUSCOMBE, Edward. " A idéia de gênero no cinema americano". Em RAMOS, Fernão Pessoa (Org.) Teoria contemporânea do cinema, vol. II. São paulo: SENAC, 2005, pp.303, 328.

GRILO, João Mario. A ordem no cinema. Lisboa, Relógio d'Agua, 1997.

LYRA, Bernadette. "O cinema de bordas": conceitos. IX Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual/Socine, Porto Alegre, 19 out. 2005.

LYRA,Bernadette & SANTANA, Gelson. "Um breve passeio pelas bordas do cinema brasileiro". Revista Filme Cultura, n.53, janeiro, 2011. www.filmecultura.com.br.

NEALE, Steve. Genre. Londres: British Film Institute, 1980.

SANTANA, GELSON (Org.) Cinema de bordas -2. São Paulo: A Lápis, 2008.