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  Título
Interlocuções tecnoestéticas entre vinhetas de filmes e a videoarte
Autor
Denise Azevedo Duarte Guimarães
Resumo Expandido
Este trabalho propõe-se a verificar de que modo as tecnologias mais recentes radicalizam a mistura e reapropriação de elementos das diferentes gerações e tipos de imagens, nas vinhetas de abertura de filmes. Originárias das iluminuras medievais, as vinhetas foram incorporadas ao cinema no início do século XX, tanto para os cartazes/letreiros que passavam informações escritas entre as diferentes seqüências no cinema mudo, quanto para as sequências iniciais. Hoje, podemos entender a vinheta cinematográfica como uma espécie de embalagem do filme, um ornamento criado externamente que, entretanto, não só integra-se ao enredo e ao clima psicológico da narrativa, como também pode revelar uma dimensão estética considerável. Uma linguagem específica de imagens encontra-se no mundo da memória humana e no universo onírico e, portanto, qualquer tentativa de memorização ou os sonhos apresentam-se como imagens seqüenciadas que tem características da seqüência cinematográfica. Essa convivência instintiva com um mundo complexo de imagens significativas talvez explique o fascínio exercido pelas imagens nos poetas de todos os tempos e as relações entre a poesia e a pintura que revela a tradição comparativa interartes e se consolida nos atuais estudos das intermidialidades. Com as devidas atualizações, a pintura pode ser considerada o agente da passagem entre imagem-cinema e imagem-vídeo, com destaque para a videoarte - cuja interlocução sígnica com as vinhetas cinematográficas será explorada nesta comunicação. Um dos aspectos mais relevantes da imagem videográfica é a metamorfose, uma vez que, na pós-produção, pode-se transformar a obra, explicitando-se o trabalho significante; é possível inverter as relações, reestruturar seus elementos cromáticos, usar diversos tipos de superposições e imbricações, transparências, dispersões das imagens, etc.; configurando assim um produto artístico que tende à reunificação dos sentidos pela força das sinestesias. É inegável que o pioneirismo da videoarte influenciou qualitativamente a linguagem da mídia eletrônica e possibilitou o aperfeiçoamento das manifestações poéticas multimidiáticas e das vinhetas de abertura de filmes, como almejamos demonstrar na análise de exemplos expressivos tomados como corpus empírico do presente artigo. Destarte, as vinhetas revelam uma visualidade que não foi tomada somente das artes plásticas ou da fotografia, mas de um tipo de linguagem que facilmente podemos identificar com a linguagem do cinema per se, que é capaz de aglutinar as outras artes e de atuar em diversos níveis de percepção. Interessa-nos, portanto, investigar como as aberturas de filmes apresentam, em tese, uma linguagem muito semelhante à da videoarte, um movimento oriundo dos EUA, nas décadas de 60 e 70, que compreende não apenas o vídeo, mas também o uso de computadores, holografia e muitas outras tecnologias gráficas e sonoras. Seus líderes, de acordo com as propostas da contracultura, estavam interessados em utilizar artisticamente as novas tecnologias para desestabilizar a hegemonia das mídias de massa. Na cena atual, o hibridismo das poéticas videográficas, que realizam a mescla criativa entre a linguagem verbal e as linguagens audiovisuais, demanda um tratamento diferenciado, por força de uma constelação de traços específicos, tais como: alta densidade semântica, grande complexidade formal e potência reveladora ou crítica. A nosso ver, uma abordagem de caráter intersemiótico integraria pressupostos teóricos e metodológicos adequados para a leitura dos diferentes tipos de signos e dos modos como eles se aglutinam, revelando um relevo semiótico estético reconhecível, como costuma ocorrer nas vinhetas de abertura de filmes que constituem o corpus empírico deste estudo.
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