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  Título
O filme, a crítica e a cidade; a recepção de Bahia de todos os santos
Autor
Maria do Socorro Sillva Carvalho
Resumo Expandido
Depois de filmado na Bahia, ao longo de 1959, Bahia de todos os santos (Trigueirinho Neto, 1960) é lançado em Salvador como grande acontecimento social, respondendo às expectativas geradas pela ampla divulgação na imprensa das diversas etapas do projeto do filme. A festa, contudo, daria lugar a uma expressiva rejeição ao filme pela maior parte da crítica de cinema local, que reconhecia as boas intenções do cineasta, sua seriedade e talento, mas consideraram o filme confuso, mal montado e esteticamente equivocado. Usando o debate travado entre Walter da Silveira e Glauber Rocha em suas colunas do Diário de Notícias, pretende-se examinar a recepção do filme em função do tratamento do tema “Bahia” proposto por Trigueirinho Neto. Ao conhecer Bahia de todos os santos naquela memorável avant-première, a crítica não perdoou seu autor, não porque o filme fosse bom ou ruim, mas provavelmente por ter mostrado imagens de Salvador que se queria acreditar como coisa do passado. Vestidos com elegância, sentados em uma moderna sala de exibição, tendo entrado nela por um tapete vermelho, nos moldes das grandes estréias internacionais, os críticos tiveram dificuldade em reconhecer aquela cidade velha, pobre e suja projetada na tela do cine Guarani. Após a espera de quase um ano para ver a obra que “divulgaria os encantos da Bahia para o mundo”, a decepção foi evidente. E a mesma força que havia impulsionado a realização do filme seria usada em sua devastação. Na véspera da estréia, o Diário de Notícias deu bastante destaque ao evento. Uma pequena matéria transmitia o agradecimento público do diretor aos muitos que o teriam ajudado, uma lista extensa que envolvia desde o governador do Estado e o prefeito da Capital até o povo da Bahia em geral. Na mesma página do jornal, havia dois longos artigos sobre o filme: "Para Trigueirinho Neto, um louvor", escrito por Walter da Silveira, e "Um filme popular", por Glauber Rocha. Já no domingo seguinte à estréia, Walter da Silveira, sem lembrar em nada o entusiasmo e os elogios do artigo anterior, sintetizava a decepção e o desgosto de quase todos aqueles que teriam visto – e odiado – o filme em um longo e duro artigo intitulado "Com sinceridade, para Trigueirinho Neto". Publicado no Suplemento de Artes do Diário de Notícias, o crítico inicia o texto lamentando não poder aplaudir Bahia de Todos os Santos, pois embora não merecesse “a vaia dos que detestaram o filme”, também não mereceria amor. O mestre da crítica cinematográfica baiana explicitava com veemência sua insatisfação por não ver expressa em um filme baiano uma temática nacional, brasileira, engrossando o coro daqueles que ansiavam ter a Bahia destacada no cenário cultural brasileiro. O seu desgosto parecia vir muito do fato de Trigueirinho Neto não ter feito da Bahia a protagonista de seu filme. Por sua vez, Glauber Rocha não seria menos enfático ao defender o trabalho de Trigueirinho Neto da “fúria de muitos” e da "crítica de ninguém". Sua longa defesa do filme respondia a questões postas pela crítica, mas preocupando-se em preservar a futura indústria baiana de cinema, ameaçada com o fracasso de Bahia de Todos os Santos. Sua argumentação baseava-se no direito à liberdade de criação do autor e no conteúdo social do filme. Para ele, os possíveis erros formais de Trigueirinho Neto nunca seriam mais importantes do que as denúncias contidas naquela visão cinematográfica da injusta realidade do país, fortes o bastante para justificar a obra inteira, mesmo sua descontinuidade, “a grande encruzilhada do filme”. Portanto, as opiniões dos dois principais críticos de cinema da Bahia esboçam o significado histórico desse trabalho de Trigueirinho Neto, o primeiro filme de peso do incipiente movimento cinematográfico baiano, ao mesmo tempo em que testemunham o esforço baiano de desenvolvimento econômico e modernização cultural da cidade de Salvador, marcantes naquele momento.
Bibliografia

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CARVALHO, Maria do Socorro. A Nova Onda baiana; cinema na Bahia (1958 – 1962), Salvador: Edufba, 2003.

CARVALHO, Maria do Socorro Imagens de um tempo em movimento; cinema e cultura na Bahia nos Anos JK (1956-1961), Salvador, Edufba, 1999.

ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo, Rio de Janeiro; Alhambra/Embrafilme, 1981.

ROCHA, Glauber. "Um filme popular" e "Defesa do filme", Diário de Notícias, 18-19/09/1960 e 02-03/10/1960.

SILVEIRA, Walter da. "Para Trigueirinho Neto, um louvor" e "Com sinceridade para Trigueirinho Neto", Diário de Notícias, 18-19/09/1960 e 25-26/09/1960.

VAZQUEZ, Petilda Serva. Intervalo Democrático e Sindicalismo; Bahia 1942 - 1947, Salvador, UFBA, Dissertação de Mestrado, 1986.