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  Título
O cinema político de Juan José Campanella e a reinvenção do melodrama
Autor
Edvânea Maria da Silva
Resumo Expandido
Em Gêneros cinematográficos (2010, p. 25), Luís Nogueira afirma que “Na história do cinema, um subgénero dramático característico do período clássico de Hollywood ganha especial relevância. Trata-se do melodrama.” Peter Brooks (apud BRAGANÇA, 2010, p. 37) observa que “o surgimento do melodrama está relacionado ao processo de “dessacralização do mundo”” (grifo do autor). Segundo Bragança (p. 38), com a dessacralização, “o melodrama assume uma tentativa de ressacralizar o mundo a partir de outras abordagens, não mais sob o signo do trágico.” Esse modo de ver, entretanto, não impediu que o melodrama também fosse visto com um gênero “menor”, o chamado “cinema de lágrimas”. Desse rótulo, não escaparam, sequer, clássicos como E o vento levou (1939), de Victor Fleming, e Casablanca (1942), de Michael Curtiz. Críticas à parte, o melodrama toca-nos ainda hoje, pois atende à “demanda por um sentido mais próximo da realidade” (BRAGANÇA, p. 46).

Para Vargas Llosa, o elemento melodramático o comove “porque o melodrama está mais perto do real que o drama”; Brooks vê o modo melodramático como uma “inescapable dimension of modos consciousness” (BRAGANÇA, p. 47). Essa (re)visão do modo melodramático aponta, a nosso ver, para uma renovação do gênero na escritura do cinema político latino-americano. Nesse sentido, destacamos as produções fílmicas de 1999 a 2009, do argentino Juan José Campanella. A renovação desse gênero, entretanto, data do Séc. XIX e ocorreu devido às transformações sociais ocorridas naquele século e que “demandaram uma maior complexificação temática das obras de melodrama, inserindo questões políticas e sociais nos espetáculos encenados para as classes trabalhadoras” (BRAGANÇA, p. 45). Àquela época, a crítica não poupou o melodrama e tachou-o de “ilegítimo” e de gênero destinado a “insensíveis plateias de selvagens iletrados” (HAYS e NIKOLOPOULOU apud BRAGANÇA, p. 45).

Salvo um ou outro comentário como o da crítica de cinema Mariana Sanchez sobre o fato de que “Campanella se propõe claramente a narrar a trajetória cotidiana do homem contemporâneo de classe média em uma grande cidade latino-americana. Ainda que discuta certos temas com lucidez e criticidade, não é engajado ou panfletário” , o melodrama ainda é, muitas vezes, visto como “inferior”, “brega”, “açucarado”, só para citarmos alguns dos epítetos atribuídos a esse gênero.

De acordo com Oroz (p.13), “O melodrama foi o gênero cinematográfico mais amado pelo público, porém o mais repudiado pela crítica e pelo chamado ‘público erudito’”. Nesse sentido, é interessante “ouvir” a crítica do jornalista e crítico de cinema da Revista Contracampo, Cléber Eduardo: “Campanella, como viria a fazer com mais habilidade em O Filho da Noiva, aposta em três barbadas: o humor cativante, o sentimentalismo garantido por trechos musicais adocicados e o ator carismático.”

Nessa crítica conservadora parece não haver espaço para o reconhecimento do melodrama como gênero dinâmico, renovador (e inovador!) e que nada tem de “menor”, pois é “forma canônica de um tipo de imaginação que tem manifestações mais elevadas na literatura, (...) como Balzac ou Henry James” (XAVIER, 2003, p. 90).

Isso posto, este trabalho busca discutir como se dá a reinvenção do cinema político de Juan José Campanella a partir daquele que é um dos gêneros do cinema mais tradicionais da Argentina: o melodrama. Propomos para tanto uma análise dos filmes Mismo amor, la misma lluva (1999), El Hijo de la Novia (2001), Luna de Avellaneda (2004) e El secreto de sus ojos (2009). Nossa escolha leva em consideração o fato de essas narrativas fílmicas se alimentarem “de falências econômicas (e política, acrescentaríamos) e fortes relacionamentos afetivos” (OROZ, 1999), levando a renovação do gênero na escritura do cinema político latino-americano.

Bibliografia

BALTAR, Mariana. Realidade lacrimosa - diálogos entre o universo do documentário e a imaginação melodramática. Tese de Doutorado em Comunicação Social. Niterói, Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, 2007.

BRAGANÇA, Maurício de. A traição de Manuel Puig: melodrama, cinema e política em uma literatura à margem. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2010.

BROOKS, Peter. The melodramatic imagination. New York: Columbia Univ. Press, 1985

NOGUEIRA, Luís. Manuais de Cinema II: Géneros Cinematográficos. Covilhã: LabCom Books, 2010

OROZ, Silvia. Melodrama: o cinema de lágrimas na América Latina. RJ: Rio Fundo Ed., 1992

THOMASSEAU, Jean-Marie. O Melodrama. Trad. Claudia Braga e Jacqueline Penjon. São

Paulo: Perspectiva, 2005.

TURNER, Graeme. Cinema como prática social. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Summus, 1997.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.