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  Título
Esposas em conflito e Mulheres perfeitas: a mulher e seus intertextos
Autor
Philio Generino Terzakis
Resumo Expandido
Prática comum na história do cinema, as refilmagens têm se multiplicado nos últimos anos. Esse fenômeno, também conhecido como remake, nos permite entrar em contato com um tipo especial de adaptação fílmica, em que tanto o hipo como o hipertexto pertencem ao domínio cinematográfico – ficando a obra primeira, caso ela exista, em segundo plano. O remake nos dá ainda a possibilidade de entrar em contato com a ideologia do contexto de produção de cada obra, permitindo um maior conhecimento de momentos diversos do mundo em que vivemos. Esposas em conflito (The Stepford wives, Bryan Forbes, 1975) e Mulheres perfeitas (The Stepford wives, Franz Oz, 2004) se encaixam nesse contexto. Neste trabalho, nosso objetivo é fazer uma análise comparativa entre os dois filmes, buscando identificar os intertextos escondidos sob a construção da personagem principal, Joanna Eberhart, nas duas produções. Esses intertextos remetem a uma certa imagem da mulher, construída a partir dos recursos audiovisuais do cinema. Os intertextos podem ser definidos como retalhos de cultura das mais diversas origens (literatura, crenças, cinema, ciência, etc.), que são a matéria-prima mesma do discurso – inclusive do discurso cinematográfico –, podendo ser explícitos ou implícitos. No caso do cinema dito clássico, os intertextos são tão naturalizados pela narração invisível, que terminam por se tornar também invisíveis – e, portanto, mais ameaçadores, pois escondem idéias prontas sobre o ser humano e o mundo em que vive, transmitindo todo tipo de ideologia, de uma forma aparentemente natural e óbvia. Esses intertextos podem vir costurados tanto na forma quanto no conteúdo dos filmes e, mais frequentemente, em ambos. Assim, não apenas o que diz um personagem, mas sua própria caracterização física pode esconder todo um discurso subliminar. No caso do nosso trabalho, esse discurso transmite duas imagens de mulher sobre as quais acreditamos ser necessária uma reflexão mais aprofundada. Nossa análise se insere no contexto dos estudos intertextuais sobre o cinema, que tiveram origem na segunda metade do século XX, a partir dos trabalhos de Julia Kristeva sobre intertextualidade. A lista dos principais teóricos sobre o assunto inclui: Mikhail Bakhtin, Gérard Genette e Michael Riffaterre, entre outros. Os estudos de intertextualidade nos parecem, enfim, uma alternativa interessante e profícua à velha discussão sobre fidelidade nas adaptações cinematográficas. Como diz Robert Stam (2006, p. 234): “As adaptações localizam-se, por definição, em meio ao contínuo turbilhão da transformação intertextual, de textos gerando outros textos em um processo infinito de reciclagem, transformação e transmutação, sem um claro ponto de origem”. O artista é, nas palavras de Stam (p. 227), o “[...] agente que dinamicamente orquestra textos e discursos preexistentes”.

Bibliografia

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. 3. ed. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. Campinas: Papirus, 2007.



BAPTISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando (orgs.). Cinema mundial contemporâneo. Campinas: Papirus, 2008.



BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 1985.



GENETTE, Gérard. Palimpsestes. La littérature au second degré. Paris: Editions du Seuil, 1982.



MARTIN, Marcel. Le langage cinématographique. Paris: Editions du Cerf, 1962.



McCONNELL, Frank. Storytelling e mythmaking. Images from film and literature. New York: The Oxford University Press, 1979.



REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Ática, 1988. Série Fundamentos.



STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. 2. ed. Tradução de Fernando Mascarello. Campinas: Papirus, 2006.



XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. A opacidade e a transparência. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.