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  Título
São Paulo A/V. Trilhas e trilhos sonoros em O Invasor
Autor
Martin Schlesinger
Resumo Expandido
Giba e Ivan, os dois personagens do filme „O Invasor” (2002), têm um problema incomum: o matador de aluguel Anísio, contratado para o assassinato de Estevão, não quer desaparecer após terminar sua tarefa. Ao invés de pegar o dinheiro e sumir, Anísio, vindo da periferia de São Paulo, invade o espaço dos seus contratantes, declarando que agora vai trabalhar para eles e sua empresa. Anísio é um personagem perigoso não apenas pela sua capacidade de circular livremente entre espaços sociais como a periferia, a favela e os bairros da classe média. É também pela sua capacidade de transgredir entre o espaço acústico e o espaço (in)visível, por entre as fronteiras fílmicas, que faz dele e de seus companheiros protagonistas invencíveis.



No Brasil „O Invasor” já foi intensivamente discutido como um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro desde a retomada da produção cinematográfica. Lúcia Nagib (2007) analisou, por exemplo, até que ponto este filme pode ser visto como documento do Brasil e de uma distopia urbana real, mostrando partes da cidade e fazendo ouvir músicas, rap, rock ou hip hop de cantores e bandas paulistas numa estética do vídeoclipe que, segundo Nagib, seria o lugar privilegiado para representar a alienação contemporânea. No entanto, apesar destes traços da realidade e de uma estética popular neste filme, nunca foi discutido em detalhes a própria estética que este cria através de uma encenação peculiar da música e de seus agentes.



Esta comunicação pretende, portanto, focalizar o papel das músicas, da trilha sonora e dos músicos, ao observar como em „O Invasor”, estas personalidades midiáticas não acabam se vendendo para uma cultura de massa ou para o banditismo (Bentes: 2003), mas como conquistam e dominam os seus espaços dentro dos espaços de um Brasil fílmico.



Seguindo as teorias sobre o espaço no cinema e teorias de Chion (1994), Gilles Deleuze e outros (Adachi-Rabe: 2005) esta análise se concentra no „programa“ acústico deste filme, em cenas que confirmam os movimentos do som, das letras e dos sujeitos sônicos entre champ e hors champ, On e Off. Esta comunicação gostaria de mostrar como a invasão em „O Invasor” tem que ser entendida não somente como transição entre bairros e diferenças sociais de São Paulo, entre classe baixa e classe média, mas como uma nova „classe mídia” transita entre as fronteiras do filme.



Se essa relação entre som e imagem pode ser descrita como uma estética do vídeoclipe, esta comunicação discute duas formas diferentes desta. Tese é que estariam presentes neste filme formas que produzem uma estética documental, caraterizada por planos longos e duração das imagens, e uma estética ficcional, ritmizada pela montagem. Essas duas estéticas são vinculadas aos protagonistas do filme: por um lado há um poder e um controle do mundo audiovisual pelo invasor Anísio, e por outro há o pesadelo e o transe do arrependido engenheiro Ivan.



A perturbação do mundo e dos sentidos de Ivan pode ser explicada com a invasão dos protagonistas acústicos, a trilha sonora e os músicos, que podem ser vistos como uma versão contemporânea de um coro trágico e uma invasão da forma dionisíaca (Nietzsche: 1972), que gera caos e um espaço filmico fechado, sem saída.



Como líder dessa tropa musical, o invasor Anísio pode ser identificado como um „acousmêtre”. A partir da noção de Chion (2003), numa análise do personagem do Dr. Mabuse no filme „O Testamento do Dr. Mabuse” (Fritz Lang, 1933), o „acousmêtre” é um ser cinematográfico poderoso, que só está presente através de sua voz em Off, perdendo o seu poder ubíquo com a presença e a sua revelação visual. No entanto, em „O Invasor”, os protagonistas Giba e Ivan têm que lidar com um outro típo de „acousmêtre”, que não perde o seu poder, invadindo as imagens.
Bibliografia

Adachi-Rabe, Kayo: Abwesenheit im Film. Zur Theorie und Geschichte des hors-champ. Münster: Nodus Publikationen, 2005.



Bentes, Ivana: ›The sertão and the favela in contemporary Brazilian film‹, in: Nagib, Lúcia: The New Brazilian Cinema. New York: I.B. Tauris, 2003.



Chion, Michel: Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.



Chion, Michel: ›Mabuse – Magie und Kräfte des »Acousmêtre«. Auszüge aus »Die Stimme im Kino«‹, in: Epping-Jäger, Cornelia / Linz, Erika (Hrsg.): Medien/Stimmen. Köln: Dumont Verlag, 2003.



Kittler, Friedrich A.: ›Der Gott der Ohren‹, in: Draculas Vermächtnis. Technische Schriften. Leipzig: Reclam, 1993.



Nagib, Lúcia: A utopia no cinema brasileiro – Matrizes, Nostalgia, Distopias. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.



Nietzsche, Friedrich: ›Die Geburt der Tragödie. Unzeitgemäße Betrachtungen I–III (1872–1874)‹, in: Nietzsche Werke. Kritische Gesamtausgabe, G. Colli / M. Montinari (Ed.), 3. Ab., Bd. 1. Berlin: Walter de Gruyte & Co., 1972.