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  Título
A “dificuldade” latino-americana no Barroco cinematográfico – Glauber, Leduc e Cao
Autor
Maria Regina Paula Mota
Resumo Expandido
Um dos grandes problemas analíticos no campo da arte e particularmente do cinema se dá com a lida de marcadores estéticos e temporais deterministas. Propomos pensar as projeções do barroco no cinema latinoamericano a partir da perspectiva de pensadores, que tomam o modus operandis da expressão barroca como forma de resistência e criação artística. Nesse lugar, e como paradigma, escolhemos Lezama Lima (1988), escritor e ensaísta cubano, que influenciou boa parte dos autores barroquistas como Carlos Fuentes, Otávio Paz, Severo Sarduy e Alejo Carpentier que também nos servem de referência para abordar os cineastas escolhidos e seus filmes.

O filme Barroco, do mexicano Paul Leduc, provoca pela sua intertextualidade, o debate proposto no contraponto entre som e imagem. Nele é possível entrever os operadores barrocos que invocam exemplarmente a “dificuldade” americana, ao atravessar a narrativa sem palavras, inspirada no livro de Alejo Carpentier (Concerto Barroco, publicado em 1977), por sua vez baseado na opera Montezuma, do Padre Antônio Vivaldi (sec.XVIII), que pretendeu contar musicalmente a conquista do México. Um índio mestiço, no papel de senhor barroco, nos guia pelos descaminhos entre a América e o carnaval de Veneza.

A ópera barroca, Terra em Transe, de Glauber Rocha e também suas leituras anti-colonialistas em Der Leone e Cabeças Cortadas, dialogam com essa tradição em que o barroco é tomado como um elemento que celebra o novo através da ruptura e da experimentação na América Latina (BRAGANÇA, 2008).

A “dificuldade” é o que move o desejo de conhecimento que se manifesta na produção artística, e que Lezama Lima diz ser fruto da curiosidade barroca, algo intrínseco à condição Americana. O Método do Contraponto que erige a visão histórica isenta de causalismo historicista, instaurando a liberdade da leitura do “sujeito metafórico” (CHIAMPI, 1988:25), é exemplar no filme EX-isto (2010) de Cao Guimarães, que consciente, ou não, retoma, pelo texto de Paulo Leminsk (Catatau, 1975), a crítica barroca da contraconquista, demolindo o pretenso edifício racionalista do barroco da contra-reforma, do qual Renato Cartesius, personagem da saga, é o grande fruto.

A intenção dessa leitura é reapropriar teoricamente desse rico vocabulário conceitual, atualizado, reafirmando o que diz Lezama Lima sobre as eras imaginárias operadas pelo conceito de anacronia, segundo o qual um ou vários passados esquecidos, como espectros, desvelam outros e inusitados presentes e outros, inusitados futuros (BRAGANCA, 2008:169).

Bibliografia

ÁVILA, Afonso. O Lúdico e as projeções do barroco. São Paulo, Perspectiva, 1994

BRAGANÇA, Mauricio de. Alteridade, conflito e resistência no Barroco de Paul Leduc. In HAMBURGER, Esther et alli (orgs) Estudos de Cinema – SOCINE. São Paulo, Annablume, 2008

CARPENTIER, Alejo. Concerto Barroco. São Paulo, Brasiliense, 1985

LEMINSKY, Paulo. Catatau. São Paulo, Iluminuras, 2010

LIMA, José Lezama. A Expressão Americana. São Paulo, Brasiliense, 1982.

SARDUY, Severo. O barroco e neo-barroco in MORENO, Cesar Fernandez. America Latina em sua Literatura. São Paulo, Perspectiva, 1979