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  Título
Timor-Leste, cinema e a invenção do Nós
Autor
Anderson Silva Vieira
Resumo Expandido
Timor-Leste é um país no sudeste asiático que apenas nos últimos anos conheceu sua independência, após aproximadamente 400 anos de colonização portuguesa e 24 anos de ocupação indonésia.

Durante seu período colonial, Timor-Leste estava inserido nas rotas de circulação de pessoas e mercadorias que ligava as colônias portuguesas, e em seu período de ocupação indonésia, Timor fez parte da política indonésia, característica da Nova Ordem de Suharto, de migração de famílias entre as províncias da República Indonésia. A proximidade com a China e o estabelecimento de Timor-Leste como entreposto comercial em épocas passadas também permitiu o estabelecimento de chineses na Ilha. A partir destas práticas e políticas estatais, Timor-Leste, especialmente sua capital, Díli, tornou-se o que poderia ser considerado como centro metropolitano, devido a presença de pessoas de nacionalidades e de origens etnolinguísticas diferenciadas.

A circulação de pessoas, ideias, capitais financeiros, equipamentos etc. tem sido uma constante em Timor-Leste há tempos, embora tenha se intensificado de forma grandiosa com a instauração da United Nations Transitional Administration in East Timor (UNTAET), que governou Timor de 1999 a 2002, quando o país passou a ter um governo próprio. A partir da independência do país um problema toma corpo diante deste contexto: a construção de um Estado-nação ligado à (re)construção de uma identidade nacional e a (re)invenção de tradições e costumes locais.

Em Díli alguns centros produtores de obras audiovisuais, como o Centro Max Stahl em Timor-Leste (CAMSTL) e a Casa de Produção Audiovisual (CPA), além de produtores independentes, como Francisca Gonçalves e David Palazon, têm tocado neste problema, mesmo que não este seja o objetivo principal assumido por alguns deles. Suas produções em vídeo vão de séries que são transmitidas via TVTL, o canal televisivo estatal de Timor-Leste, a vídeos-documentários que tanto circulam localmente quanto podem ser adquiridos via internet, em sites como o do Institut National de l'Audiovisuel (INA), instituição francesa que permite o download pago em seu portal.

Parte das produções desses centros e produtores independentes é realizada mediante apoio financeiro de organizações internacionais diversas, como o Banco Mundial e a Ordem Jesuíta. Algumas vezes as produções são realizadas sob encomenda dessas organizações, caso contrário, não haveria capital financeiro para tanto.

Como pensar a constituição de um “cinema nacional” num contexto onde o fluxo de pessoas, ideias, capitais financeiros está intrinsecamente ligado à possibilidade de realização ou não-realização de produções audiovisuais? Além disso, como vários produtores independentes e diretores desses centros de produção de obras audiovisuais são não-timorenses, coloca-se de antemão a questão de como se dá a construção imagética e discursiva do Outro timorense mediante esta relação de alteridade.

Para além desta questão, que vejo como básica dentro da literatura antropológica, proponho-me a analisar neste trabalho não apenas como se dão as relações de alteridade, percebidas em construções imagéticas do Outro timorense (ou do Nós timorense, no caso de produtores locais), mas também em como estas produções acabam por constituir um incipiente campo audiovisual timorense, relacionado a um campo artístico mais amplo e as demandas do Estado e da sociedade.
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