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  Título
Os seriados norte-americanos e o cinema brasileiro dos anos 1920
Autor
Luciana Corrêa de Araújo
Resumo Expandido
Os seriados norte-americanos produzidos nos anos 1910 constituíram um fenômeno de popularidade em diversos países, inclusive no Brasil, onde o entusiasmo pelo gênero se prolongou pela década de 1920, graças às constantes exibições que os filmes continuavam a ter, especialmente nos cinemas de bairro e do interior. Embora não haja registros de seriados produzidos no Brasil dos anos 1920, o gênero marca tanto a produção quanto o imaginário de realizadores, cinegrafistas e artistas desse período. A proposta desta comunicação é investigar a presença dos seriados norte-americanos no cinema brasileiro dos anos 1920. A fim de abordar não só à produção como também a recepção por parte de profissionais do meio cinematográfico, a pesquisa explora fontes diversas, desde filmes com cópias existentes, produções consideradas desaparecidas e projetos não realizados a matérias em revistas e jornais, correspondências e livros. O trabalho irá privilegiar a produção em Cataguases e Recife. Na cidade mineira, Humberto Mauro “recebeu pela primeira vez uma impressão cinematográfica marcante”, conta Paulo Emilio Salles Gomes, ao assistir aos episódios estrelados por Eddie Polo, um dos mais queridos astros dos seriados. Por meio das descrições, é possível observar a incorporação do gênero nas duas primeiras experiências de Mauro: Valadião, o Valadião, o cratera (1925), filmado na bitola doméstica de 9.5 mm, e Os três irmãos, projeto não realizado que tinha argumento escrito pelo fotógrafo Pedro Comello. Em Tesouro perdido (Humberto Mauro, 1927), é possível identificar elementos dos seriados, seja na construção da intriga, seja na caracterização dos vilões e mocinhos. Nesse mesmo momento, Pedro Comello dirige a filha Eva Nil em Senhorita Agora Mesmo (1927), filme desaparecido cuja sinopse e fotos apontam uma evidente influência dos seriados, sendo possível também imaginar uma protagonista nos moldes das serial queens norte-americanas, protagonistas de alguns dos mais populares filmes do gênero. Em Recife, o fascínio pelos seriados tem desdobramentos em filmes, projetos e nos textos de Jota Soares – ator, realizador e principal memorialista da produção local dos anos 1920. Os dois primeiros longas de ficção da Aurora-Film, Retribuição (Gentil Roiz, 1925) e Jurando vingar (Ary Severo, 1925), tomam como modelo os seriados e os filmes de aventuras de caráter marcadamente popular, o que lhes valeu severas críticas contra os excessivos “americanismos”. Já na década de 1930, quando há o movimento de recriar a produtora Aurora-Film, anuncia-se a produção de O valente brasileiro, filme em episódios que não se realiza. Nos textos de Jota Soares escritos nas décadas seguintes, os seriados são tema recorrente, mas já em 1926 ele envia uma curiosa carta a Gentil Roiz, na qual adota o estilo dos folhetins e seriados para relatar o que define como a “continuação do cine romance de aventuras”, com as últimas peripécias envolvendo o meio cinematográfico local, após a viagem do amigo ao Rio de Janeiro. A admiração pelo gênero permeia as duas séries de crônicas que Soares publica no Diário de Pernambuco, na década de 1960. A leitura de “Relembrando o cinema pernambucano” e “Telas & Fatos” compõe todo um universo em torno dos seriados, desde a influência nos filmes realizados em Recife até referências aos atores e títulos mais queridos pelos fãs, passando por relatos sobre as exibições, em que são descritos as sessões, o público, os donos das salas. Esta comunicação pretende avaliar as características do gênero que exerceram maior apelo sobre os realizadores brasileiros e em que medida foram incorporadas em filmes e projetos dos anos 1920.
Bibliografia

CUNHA FILHO, Paulo C. (org.). Relembrando o cinema pernambucano – Dos arquivos de Jota Soares. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 2006. GOMES, Paulo Emilio Salles. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo: Perspectiva/Ed. Universidade de São Paulo, 1974. SOARES, Jota. Histórias da minha história [Álbum]. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, s.d. ____ . Carta a Gentil Roiz. Recife, 1926. Cinemateca Brasileira, Arquivo Pedro Lima. Sites Biblioteca do Museu Lasar Segall. Cinearte (1926-42) digitalizada: http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/ Cinemateca Brasileira: www.cinemateca.gov.br