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  Título
A vida é alheia, mas os efeitos da cultura industrializada são nossos
Autor
Dilma Beatriz Rocha Juliano
Resumo Expandido
O conceito de “indústria cultural”, enunciado por Adorno e Horkheimer (1985) em 1947, serviu, inicialmente, para apontar o processo de mercadorização pelo qual passava a cultura, desde o iluminismo. Para eles, indústria cultural designava a produção cultural, artística e intelectual apropriada pelos processos maquínicos e colocada à disposição do consumo com a mesma lógica aplicada a todas as mercadorias industrialmente fabricadas, principalmente no sentido do descontínuo, da fragmentação e da possibilidade de reprodução.

Desde que sistematizado e enunciado, o conceito vem sendo apropriado, utilizado, deslocado, reapropriado de muitas formas de crítica ao capitalismo, servindo tanto aos afeitos quanto aos desafetos do processo de nivelamento das produções artísticas e culturais à mercadorização das sociedades. De um conceito exógeno à indústria – acadêmico, intelectual e dos círculos artísticos – passa, contemporaneamente, a ser utilizado pelos próprios veículos dessa indústria, não mais, certamente, com a força e pressão políticas empregadas pelos seus autores iniciais. Mas, de que sentido está recoberto o conceito dos frankfurtianos quando o lugar de enunciação é o próprio alvo crítico do conceito? Ou seja, o que se pode ler/ouvir quando a indústria da cultura fala de si mesma? Quando a televisão e o cinema, por exemplo, se propõem a ser críticos de si próprios, quais apontamentos são feitos ali? Muito frequentemente o emprego dessa temática aparece nas narrativas de ficção televisiva através de personagens jornalistas ou publicitários que representam um ponto de vista sobre o papel da indústria cultural nas relações em sociedade. No entanto, trata-se de referências pontuais sem maiores repercussões no enredo como um todo.

Quarto veículo na linha de sucessão da indústria cultural, a televisão no Brasil vem ocupando importante lugar na cultura midiática desde os anos 50; foi rápida sua ascensão como bem cultural simbólico de maior audiência. No gênero teledramaturgia, a programação das emissoras brasileiras, em especial da Rede Globo de Televisão, vem recebendo também destaque internacional desde a década de 70, do século XX. As narrativas de ficção televisiva são apontadas pelas emissoras como produto de primeira linha na cadeia lucrativa e com êxito já garantido nas exportações.

É, portanto, no âmbito da teledramaturgia que se pretende concentrar esta comunicação, enfocando como objeto “A vida alheia”, o seriado veiculado pela Rede Globo de Televisão, em episódios semanais, de 08 de abril a 25 de agosto de 2010 (1ª temporada).

A narrativa do seriado tem como núcleo central a produtora de uma revista de variedades que compete num mercado acirrado pela venda de produtos efêmeros, que não garantem nenhuma longevidade de assuntos – cada número da revista “briga” pela atenção do público leitor. A cada semana, a revista expõe mais do mesmo, pessoas “famosas”, celebridades do mundo do espetáculo, que flagradas em momentos de intimidade são fotografadas e expostas à venda, atendendo mais aos interesses econômicos de quem detém os meios de divulgação, do que correspondendo à função social da informação.

Portanto, cabe questionar se ao veicular um seriado como “A vida alheia”, a TV está diluindo a crítica e seus efeitos formadores de um telespectador astuto? Ou a crítica à indústria cultural já se expandiu de tal forma que se torna inevitável que a própria TV reflita sobre seus efeitos de industrialização? Ou, ainda, concordando com Adorno e Horkheimer (1985), o efeito da mercadorização das relações em sociedade é tão pungente que a própria crítica torna-se produto à venda sob a forma de ficção?

Os estudos sobre a produção televisiva devem, então, persistir em seu papel de atualização/produção de conhecimento, enunciando novos conceitos ou reatualizando os já existentes.

Bibliografia

ADORNO, T., HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

BUCCI, Eugênio, KEHL, Maria Rita. Videologias. São Paulo : Boitempo, 2004.

A VIDA Alheia. Direção Miguel Falabella. Rio de Janeiro: Som Livre/Globo Marcas, 2011. 2 DVDs.

CHAUÍ, Marilena. Cidadania cultural. O direito à cultura. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006.

JESUS, Altair Reis de. A imagem como mercadoria e a juventude no universo midiático do consumo. In: O olho da história, ano 12, n.9, dezembro/2006.

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: EDUSP, 1997.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

DUARTE, Elizabeth Bastos e CASTRO, Maria Lília Dias de (Orgs.). Televisão: entre o mercado e a academia. Porto Alegre(RS): Sulina, 2006.

SARLO, Beatriz. Tempo presente. Notas sobre a mudança de uma cultura. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.