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  Título
Emílio Guimarães, ativo fotocinegrafista na Porto Alegre dos anos 1910
Autor
alice dubina trusz
Resumo Expandido
Porto Alegre conheceu, na década de 1910, um processo de multiplicação das imagens mecânicas de si própria, de seus habitantes e de suas práticas ao nível do cotidiano. Em julho de 1912 foi produzido o primeiro cinejornal local, a partir da iniciativa da empresa Francisco Damasceno Ferreira & C., proprietária do cinema Recreio Ideal. Em setembro, os progressos da indústria gráfica local permitiram lançar no mercado a primeira publicação porto-alegrense ilustrada com fotografias, a revista de variedades Kodak. Ela foi também a pioneira na publicação de fotogravuras do público de cinema local, veiculando-as seja como conteúdos independentes, seja como ilustrações de anúncios publicitários de exibidores cinematográficos. Emílio Guimarães protagonizou tais iniciativas, sendo o responsável pela realização do Recreio Ideal-Jornal durante o segundo semestre de 1912 e pela reportagem fotográfica e direção artística da Kodak, entre outubro de 1912 e abril de 1914. No entanto, o seu nome aparece apenas de forma marginal nas escassas pesquisas existentes sobre a história do cinema silencioso brasileiro, em particular, tendo inclusive a sua autoria omitida no caso do cinejornal citado, atribuído a Eduardo Hirtz, que o teria produzido porque seria proprietário da sala (Pfeil, 1995:20). Talvez Hirtz fosse um dos sócios do Recreio Ideal em 1912, mas isso ainda precisa ser comprovado. Afinal, o seu nome jamais aparece vinculado ao cinema ou ao cinejornal na imprensa da época, ao contrário do que ocorre com o de Emilio Guimarães e do próprio F. Damasceno Ferreira. Emílio possuía um currículo significativo enquanto produtor de imagens quando chegou em Porto Alegre, em meados de 1911, vindo do Rio de Janeiro, onde teria realizado filmes para Labanca e Leal e Paschoal Segreto. Em meados de 1912 atuava como repórter fotográfico da Fon-Fon no RGS, tendo publicado na revista carioca imagens de paisagens do interior gaúcho, assim como de eventos públicos e calamidades porto-alegrenses. Em abril de 1914 deixaria a redação da Kodak para partir para a região do Contestado em “excursão photo-cinematographica”, resultando da aventura várias fotografias, publicadas na Kodak como reportagem suplementar, e um filme, Os fanáticos do Taquaruçu, exibido com sucesso em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Emílio também teria filmado os funerais do senador Pinheiro Machado em Porto Alegre, em setembro de 1915. Estes são alguns dos registros da sua atuação em Porto Alegre que se pretende investigar, esclarecer e fundamentar documentalmente. Com tal pesquisa objetiva-se contribuir para uma revisão crítica da história e da historiografia do cinema brasileiro, propondo uma discussão acerca dos processos de construção de memórias e mitos e suas práticas de seleção e omissão. Trata-se de recuperar os direitos autorais de Emilio Guimarães sobre as imagens que produziu, mesmo que desaparecidas, e reintegrá-lo oficialmente à história do cinema brasileiro, na categoria de cinegrafista titular. A investigação das práticas e das imagens em torno delas produzidas e circuladas corresponde a uma abordagem que procura extrapolar o limite dos filmes para percebê-los como produtos culturais que mediam relações e são atribuídos de sentidos ao longo de suas trajetórias sociais. O interesse pelos vínculos entre os modos de produção e outros âmbitos do cinema, como a exibição e a apropriação, assim como entre o cinema e outras manifestações visuais suas contemporâneas, entre o cinema e a dinâmica da vida urbana, entre os cinegrafistas, os setores produtivos e o poder político, permite complexificar a compreensão dos modos de produção cinematográfica da época e da inscrição do cinema na dinâmica social mais ampla. Significa respeitar a historicidade dos fenômenos, observando, por exemplo, a acumulação de funções, a escassez de recursos, a multiplicidade de identidades que caracterizavam, entre outros aspectos, a produção cultural da época, particularmente o cinema e a imprensa.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro: metodologia e pedagogia. SP: Annablume, 1995. CHARTIER, R. O mundo como representação. Estudos Avançados, SP, n. 11 (5), p. 173–191, 1991. GAUDREAULT, André. “El cine de los primeros tiempos situado y mantenido a distancia...”. Archivos de la Filmoteca, Valência, n. 28, p. 73-79, febrero, 1998. GOMES, P. E. S. A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898- 1930). In: CALIL, C. A. e MACHADO, M. T. Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente. SP/RJ, Brasiliense, 1986. LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. Enciclopédia Einaudi. Vol. 1. RJ: Imprensa Nacional, 1984. MENESES, U. T. B. Fontes visuais, cultura visual, história visual. Balanço provisório, propostas cautelares. Revista Brasileira de História. SP, v. 23, n. 45, p. 11-36, 2003. MORETTIN, Eduardo. Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. Revista Brasileira de História, v. 25, n. 49, SP, jan.-ju