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  Título
Mágica, poesia e espetáculo: Viagem à Lua e uma ubiquidade moderna
Autor
CIRO INACIO MARCONDES
Resumo Expandido
Os números de mágica e a profissão da prestidigitação ainda são populares nos dias de hoje, mas seu impacto como espetáculo teve fundamental importância para o imaginário cultural das emergentes metrópoles do século XIX, quando se destacavam no vaudeville e no music hall. A extensão cultural natural entre o cinema e a magia é bastante conhecida (Morin, 2003), mas aqui nos propomos a aproximar especificamente a elaboração da prestidigitação (o mágico profissional) como aparentada logicamente ao caráter espetacular do cinema, mas também, de maneira mais intrinsecamente profunda, à qualidade poética do cinema.

O famoso pioneiro Géorge Méliès praticava a profissão da prestidigitação antes de conhecer o cinema, e a relação orgânica que ele estabeleceu entre estes dois meios de expressão - realizando a passagem da pré-modernidade para a modernidade - se deu através da substituição dos procedimentos técnicos óptico-motores da mágica pelos procedimentos técnicos de filmagem e montagem do cinema. Seu filme universalmente conhecido, "Viagem à Lua" (1902), acabou tornando-o genericamente reconhecido como uma espécie de "pai" do cine-espetáculo, dos efeitos especiais, do filme de ficção-científica.

É importante ressaltar que obviamente há uma eclosão da cultura do espetáculo cinematográfico nesse filme, mas nossa proposta consiste em entender que, escondida na relação mais profunda entre mágica, poesia e cinema, reside uma motivação mais polivalente em "Viagem à Lua". Tanto a mágica quanto a poesia poderiam ser lidas como fundamentadas em princípios de condensação e deslocamento de material imaginário e simbólico. A poesia, na literatura, realoja possibilidades morfológicas, sintáticas e semânticas da linguagem, reinventando, a cada instante, nossos parâmetros de recepção do mundo. Já a mágica realoja as possibilidades de articulação do tempo e do espaço, trabalhando com deslocamento e condensação de proporções e relações de causa e efeito, ocasionando a ilusão de romper com categorias a priori conforme propostas por Hume (1973) e Kant (2005).

Transformar esta relação em espetáculo foi o passo para atravessar o imaginário global com uma espécie de ruptura coletiva que Benjamin (1994) identificou como uma psicose saudável, especialmente em relação aos desenhos animados. Porém, parece-nos que o filme de Méliès se afixou tão profundamente em nosso imaginário porque o uso deste espelho entre a mágica e a poesia foi também anunciador de quase tudo o que a arte do cinema viria a ser. Méliès, mesmo enquadrado em um padrão do primeiro cinema, fazia um aproveitamento de seus cenários pintados de maneira que parecessem verdadeiras landscapes cujo impacto poético é aglutinador em si, diminuindo o ser humano diante do cosmos, conservando em certos momentos uma duração meditativa do tempo. Assim, vale frisar que esta frequência que se estabelece no filme é mais importante e moderna do que pensar somente a herança do colonialismo positivista no filme.

Basta lembrar a famosa sequência em que o foguete atinge a Lua, que se aproxima do espectador como um obus, e chora com misto ambíguo de virulência e delicadeza. Logo depois, os astronautas aparecem na paisagem estranha da superfície lunar, de onde podem, 70 anos antes da Apolo 11, vislumbrar a Terra a partir de outro corpo celeste. O impacto desta visão para as plateias de 1902 é difícil de se conceber. Logo depois, cansados, o astronautas deitam-se para sua primeira noite lunar, e o tempo no filme sofre uma mudança na modulação da ação, enquanto passam cometas, estrelas e os planetas do nosso sistema solar no céu. Méliès, como sempre fazia, colocou rostos humanos nos astros, vivificando o cosmos através de uma metempsicose poética, dando a entender que vivemos sob um politeísmo incognoscível, e que os sonhos nos acompanham no espaço. Este filme já trazia, portanto, o germe não apenas da técnica moderna, mas do projeto de uma ubiquidade de representações que o século XX viria a desenvolver.
Bibliografia

COSTA, Flávia Cesarino. O primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação. Rio de Janeiro: Azouque, 2005.

GRIEVESON, Lee; KRÄMER, Peter. (Org.) The silent cinema reader. Routledge: New York, 2006.

CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa. (Org.) O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

GAUDREAULT, André. Du littéraire au filmique. Paris: Éditions Nota, 1999.

HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril, 1973.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

KOBEL, Peter. Silent movies – the birth of filme and the triumph of movie culture. New York : Little, Brown and Co., 2008.

MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós- cinemas. Campinas: Papirus, 1997.

MORIN, Edgar. A alma do cinema.In: Ismail Xavier (Org.).A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2003.