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  Título
Movimento em falso: o pós-dramático, o bildungsroman e o roadmovie
Autor
Pablo Gonçalo Pires de Campos Martins
Resumo Expandido
Lançado em em 1975, o filme Movimento em Falso (Falsche Bewegung) representa a consolidação do estilo de Wim Wenders, seu diretor, e sua parceria com Peter Handke, escritor austríaco que assina o roteiro. O filme também chama a atenção por ser uma livre adaptação do romance Os anos de aprendizagem de Wilheilm Meister, de Johann Wolfgang Goethe. Reconhecida como uma das obras seminais do romantismo alemão, o livro de Goethe é considerado um típico romance de formação (Bildungsroman) no qual busca-se uma harmonia entre a natureza e o indivíduo, assim como narra a passagem do protagonista para a idade adulta.

Esta apresentação na Socine pretende analisar a construção dramatúrgica e narrativa do filme de Wim Wenders `a luz dos trabalhos literários e das peças teatrais de Peter Handke. Curiosamente, o romance original de Goethe mostra um grupo de teatro que perambula entre diversas cidades da Alemanha e Wilhelm, o protagonista, acaba juntando-se ao grupo. É quando o jovem alemão descobre Shakespeare, encena Hamlet se apaixona e percebe as artimanhas da representação teatral. Goethe, portanto, enfoca o teatro. Sobretudo o teatro clássico, Shakespeare e o classicismo.

Essa mesma proeminência do papel do teatro na formação do protagonista também é aproveitada na sua versão cinematográfica.No filme, Wilhelm também junta-se am grupo nômade de teatro. No entanto, vê-se um teatro de rua, focado na performance e com preceitos que fogem. Essa mudança não ocorre casualmente. Peter Handke é hoje considerado um dos principais escritores de peças pós-dramáticas. Peças como Kaspar e Publkumsbeschimpfung (Ofendendo a platéia), escritas alguns anos antes de Falso Movimento. apontavam para novas experimentações no palco, novas formas de abordar a atuação, a performance e a representação teatral.

Hans-Thies Lehman interpreta essa nova dramaturgia como pós-brechtiana e, segudno, ele, essa nova forma narrativa se situaria em um espaço aberto pelas questões brechtianas sobre a presença e a consciência do processo de representação. Essas questões se estenderiam para o papel da estética teatral abordando uma “estrutura de sentimento”, conforme conceituado por Raymond Williams, que entrelaça uma nova arte de assistir, com um estilo inovador de performance e de escrita teatral. Autores contemporâneos (como Heiner Müller, Samuel Beckett e Botho Strauss) apontam para a repercussão de outras elaborações estéticas a partir do texto para teatro, como uma poética da perturbação, a utilização do palco e do espaço como um dado de linguagem (e não somente de representação), o uso de sons de diversas procedências que adquirem sentidos narrativos e implicações semióticas – um conjunto de características que acaba por compor uma “paisagem-textual”, segundo expressão de Hans-Thies Lehman.

Um olhar atento a Movimento em Falso percebe a presença de alguns desses elementos pós-dramáticos na sua urdidura narrativa e estética. Não por acaso, a parceria entre Handke e Wenders apresenta um resultado exemplar do “texto-paisagem” sobre o qual pretendemos analisar detalhadamente. Boa parte da apresentação tentará investigar a consistência conceitual de uma narrativa pós-dramática para a linguagem cinematográfica, assim como na obra de Wim Wenders e de sua possível influência em parte do cinema contemporâneo.

Juntamente aos filmes Alice nas cidades (1976) e No decurso do tempo (1974), Movimento em falso forma uma trilogia que retrata personagens em movimento: viajando entre cidades, países e locais diversos. Esses filmes são conhecidos como os primeiros road movies do diretor alemão. Essas três obras tornam evidente uma forte influência da cultura norte-americana na formação estética de Wim Wenders e Peter Handke. Essa apresentação na Socine também pretende apontar possíveis relações – temáticas, formais e narrativas – entre o road movie e o romance de formação.

Bibliografia

BUCHKA, Peter: Olhos não se compram: Win Wenders e seus filmes. Cia das Letras, São Paulo, 1987.

FIGUEIREDO, Vera Lúcia Follan: Narrativas migrantes: literatura, roteiro e cinema. Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2010.

GOETHE, Johann Wolfgang von: Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Editora 34, São Paulo, 2006.

HANDKE, Peter: Kaspar. Shurkamp, Frankfurt, 1977.

:Falsche Bewegung. Shurkamp, Frankfurt, 1976

LEHMAN, Hans-Thies: Teatro pós-dramático. Cosac Nayf, São Paulo, 2007.

PAESCH, Joachim. Literatur und Film. Stutgart: Metzler, 1997

SAFRANSKI, Rüdiger: Romantismo: uma questão alemã. Estação Liberdade, São Paulo, 2010.

STAM, Robert: A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Editora UFMG, Belo Horizonte, 2008.

WILLIAMS, Raymond: Drama em Cena. , 1991. Cosac Naify, São Paulo, 2010