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  Título
Políticas do Afeto: Linhas de Força do Cinema Brasileiro Contemporâneo
Autor
Ramayana Lira de Sousa
Resumo Expandido
Há, nos estudos recentes sobre o cinema brasileiro, uma séria preocupação em perscrutar as implicações políticas da produção contemporânea. Marcados por um vocabulário restrito, que retoma termos como estética da fome, realismo, marginalidade, má consciência, alegoria, identidade, tais estudos, no entanto, podem acabar por generalizar um tipo de abordagem que levaria a um engessamento das análises, ignorando as singularidades das obras ou relevando afiliações. Os filmes de um grupo de jovens realizadores brasileiros (entre os quais Heitor Dhalia, Daniel Caetano, Tiago Mata Machado, José Eduardo Belmonte), apresentam um real desafio à crítica, na medida em que parecem escapar a esse vocabulário, colocando-nos diante de problemas de outra ordem.

Passando ao largo de temas repisados pela cinematografia nacional, como a violência urbana e o revisionismo histórico, os filmes dessa geração exigem parâmetros para leitura que permitam repensar a potência política do cinema brasileiro. Sem a ambição de classificações totalizantes, o que se propõe aqui é esboçar algumas da linhas de força desse cinema recente, mapeando movimentos sugeridos por filmes realizados nos últimos cinco anos que sugerem pontos de fuga a estéticas e temáticas ubíquas.

Dessa forma, cabe identificar e analisar esse conjunto recentíssimo de obras, destacando seu modo de produção (em especial as estratégias de fomento), o intenso regime colaborativo da realização, que leva, necessariamente, a uma reavaliação da ideia de autoria, e a relação entre criação, crítica e cinefilia.

Cabe, ainda, pensar no questionamento imposto ao estatuto da imagem cinematográfica, que vacila entre o documental e o ficcional, sem procurar um ponto de resolução (e que se mostra não apenas em filmes mais evidentemente ficcionais, mas em obras de diretores documentais como Gustavo Spolidoro, Sérgio Borges e Gabriel Mascaro).

Além disso, parece haver uma abertura para imagens outras que não as “imagens do Brasil”, remetendo a uma política da pós-identidade que extravasa os contornos de narrativas de nação, classe, raça e gênero. Ainda nesse sentido, o cinema de que se fala aqui tende a suspender qualquer julgamento em relação à “realidade” nacional, optando por configurações mais singulares e menos alegóricas.

Tomando como base o filme Se nada mais der certo (2008), de José Eduardo Belmonte (mas extraindo exemplos e problemas de outros filmes), interessa-nos discutir essas linhas de força, com ênfase nos desdobramentos políticos da noção de afeto. Tal noção aparece já nos encontros criativos na concepção e realização dos filmes, mas também mostra-se nas reconfigurações das relações entre personagens que revelam insuspeitados laços afetivos, para além de modelos estabilizados de identidades, sugerindo novos modelos comunitários. E é também o afeto que está em jogo na relação com o espectador, cuja capacidade de resposta (response-ability, como enfatiza Marco Abel) é constantemente desafiada.
Bibliografia

ABEL, Marco. Violent affect: literature, cinema, and critique after representation. Lincoln: University of Nebraska Press, 2007.

CLOUGH, Patricia Ticineto. Affect and control: rethinking the body ‘beyond sex and gender. Feminist Theory 2003; 4; 359

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia?. Rio de Janeiro: 34, 1997

MASSUMI, Brian (ed.). Shock to thought: expression after Deleuze and Guattari. Londres: Routledge, 2002.

PARODI, Ricardo. “Cuerpo y Cine. Reporte Fragmentario sobre Extrañas Intensidades y Mutaciones Del Orden Corporal”. Gerardo Yoel (Ed.). Pensar el Cine 2. Buenos Aires: Manancial, 2004. 73-100.

RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34