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  Título
Por uma pedagogia godardiana
Autor
Mário Alves Coutinho
Resumo Expandido
Já foi argumentado várias vezes: a arte talvez seja a maneira mais completa e convincente de ensinar qualquer coisa. Quais as razões para tal afirmação? A primeira delas se constata quando se pensa no caráter obrigatório do ensino escolar (em qualquer nível): a pessoa não tem escolha. Em geral, todas as pessoas são obrigadas (geralmente pelos pais, depois pela necessidade de aprender e se qualificar para a vida do trabalho) a aprender, isto é, a ir à escola. Ler um livro, ver um filme, escutar uma música, ver uma exposição de pinturas, ver uma peça de teatro geralmente são atividades escolhidas pelas próprias pessoas. Certamente, quando uma pessoa escolhe sua atividade, ela se engaja mais decididamente nela. Da mesma maneira, o propósito pedagógico do ensino na escola é o essencial; o brincar e a brincadeira, embora estejam incluídos, são menos importantes. Na arte, a brincadeira, o brincar, o se divertir, é a característica primeira e originária. Em terceiro lugar, o ensinar na escola (como o aprender, aliás) é uma atividade altamente consciente, racional, e objetiva; na arte, contamos com um outro agenciamento: o inconsciente é largamente usado. Em quarto lugar, o ensino escolar ou acadêmico é, por sua característica intrínseca, repetitivo; as grandes obras de arte são sempre invenção, formalmente, e também quanto aos seus temas: elas narram novas maneiras de viver, de sentir, de pensar, quase sempre. Daí a superioridade da arte quando se trata de ensinar algo: ela é uma atividade que as próprias pessoas escolhem; na arte, a brincadeira, o brincar, a diversão, são aspectos vitais; o ensinamento se dá de forma consciente e inconsciente, mais completa; e, finalmente, quase nunca se repete o que ensina.

O que ensina a arte? Tudo, ou quase tudo. Principalmente, ela ensina, como queria Nietzsche, a afirmar e celebrar a vida: "a arte é o grande estimulante para a vida. Ou então, o que faz toda arte? Não louva? Não glorifica? Não escolhe?" Ou, como escreveu Gilles Deleuze, "fim último da literatura [aqui poderiam ser interpolados: cinema, teatro, pintura, música, etc]: pôr em evidencia no delírio essa criação de uma saúde, ou essa invenção de um povo, isso é, uma possibilidade de vida". Mesmo quando ela é trágica, terrível, problemática, ela é afirmativa, como sabia Nietzsche: "valoriza [a vida] integralmente, é porque é um sim triunfante mesmo ao que nela existe de “terrível”, “problemático” e “pavoroso”."

Jean-Luc Godard, há cerca de cinqüenta anos, com o seu cinema, tem feito, entre outras coisas, um esforço enorme para ensinar as pessoas. O que, exatamente? A pretensão dele é claramente totalizante: "pode-se colocar tudo num filme. Deve-se colocar tudo num filme". Num primeiro momento, numa aproximação baziniana ao cinema, ele procura filmar as idéias, as frases, o mundo moderno, toda uma cultura e suas manifestações; depois, num movimento contrário a Bazin (que pensava a montagem como manipulação), monta o que havia filmado, e aí nasce seu discurso (seu ensinamento): o confronto de tudo com tudo, de um ponto de vista com seu contrário: exatamente como escreveu sobre ele Serge Daney: "ao que o outro diz (asserção, proclamação, sermão) ele responde sempre com o que um outro outro diz". Desta maneira, ele ensinou a literatura, por exemplo, ao realizá-la no interior de seus filmes e ao tratá-la como tema. Fez o mesmo quanto à música, o teatro, a pintura. Na verdade, ensinou e discutiu quase toda cultura humana, muitas vezes antagonizando-a: começou por usar gêneros originariamente americanos (o policial, a comédia musical), para em seguida negar este cinema, principalmente sua ideologia capitalista. Pois, para ele, como quer Serge Daney, "o cinema não tem uma especificidade: seu total desprezo por todo discurso que tende a definir, a preservar, uma “especificidade” do cinema". Para Godard, finalmente, tudo pode ser cinema; tudo pode ser aprendido no cinema; e tudo pode ensinado no cinema.

Bibliografia

COUTINHO, Mário Alves. Escrever com a câmera: a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard. Belo Horizonte: Crisálida, 2010

DANEY, Serge. A rampa. Trad.: Marcelo Rezende, São Paulo, CosacNaify, 2007

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 2008.

_________. Pourparlers. Paris: Les Éditions du minuit, 1990.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo, Editora Paz e Terra, 2001.

GODARD, Jean-Luc. Jean-Luc Godard par Jean-Luc Godard, tome I. Paris: Cahiers du Cinéma, 1988.

LESSER, Simon O. Fiction and the unconscious. Chicago: The University of Chicago Press, 1975.

MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 2010.

__________, Nietzsche e a verdade. Rio de Janeiro, Graal, 2002.

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.