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  Título
A crise da mise en scène no cinema moderno
Autor
Luiz Carlos Oliveira Junior
Resumo Expandido
A época de ouro da cinefilia, que vai da agitação cineclubista do pós-guerra aos acontecimentos de Maio de 68, é um dos períodos mais férteis do ponto de vista de uma história das ideias sobre a arte cinematográfica. Uma expressão em particular, a “mise en scène”, pela importância que adquiriu nos debates estéticos realizados naquele período, ocupa posição de destaque nessa história.



Nos anos 1950, a mise en scène reina absoluta no repertório conceitual da crítica: é o momento em que os jovens críticos dos Cahiers du Cinéma atribuem a quintessência da linguagem cinematográfica ao apogeu do estilo clássico em Hitchcock, Hawks, Mizoguchi, Lang, Preminger e alguns outros “autores”. Assinados por Jacques Rivette, Alexandre Astruc, Fereydoun Hoveyda, Éric Rohmer ou Michel Mourlet, são publicados autênticos manifestos estéticos que tratam a mise en scène como a parte mais nobre do cinema, quicá a única que de fato conta.



A mise en scène aí defendida é um pensamento-em-ação, a encarnação de uma ideia, a organização e a disposição de um mundo para o espectador. Acima de tudo, trata-se de uma arte de colocar os corpos em relação no espaço, estendendo ao universo o jogo dramático que o teatro restringia ao palco. Expressão cunhada, em sua origem, para designar uma prática teatral, a mise en scène adquire no cinema essa dimensão fenomenológica: mostrar os dramas humanos esculpindo-os na própria matéria sensível do mundo.



Na segunda metade dos anos 1960, uma mudança de paradigma vem colocar em xeque o conceito de mise en scène. Embalados pelos “cinemas novos”, críticos como Jean-Louis Comolli e André S. Labarthe começam a questionar a principal ferramenta conceitual da cinefilia clássica, ou seja, a mise en scène como critério absoluto de juízo estético dos filmes.



Segundo Labarthe, um filme como "Uma mulher é uma mulher" (Godard, 1961) deflagra um ponto cego na definição clássica de mise en scène porquanto “radicaliza a eliminação dos elementos propriamente sintáticos do cinema”. Resnais, por sua vez, é louvado como o primeiro “cubista” do cinema sonoro, reconstruindo a realidade a partir da fragmentação. Labarthe chega a dizer que, à medida que os filmes modernos falam cada vez menos a linguagem da mise en scène, a expressão teria se tornado obsoleta, e “seria saudável nos desvencilharmos dela como fez a pintura com a palavra 'figurativo'”. Instaura-se, assim, uma crise da mise en scène.



Tal crise não se limita a um dilema conceitual forjado pela crítica, e logo se fará sentir nos filmes, levando a geração surgida imediatamente após a “revolução” do cinema moderno a buscar alternativas. Inauguram-se, então, duas vias que consistem basicamente em colocar-se acima ou abaixo da “linha” da mise en scène. Para alguns cineastas, todo o exercício de encenação deverá ser deliberado, refletido, consciente do seu lugar na história das formas: é a hipertrofia maneirista da mise en scène em Ruiz, Wenders, Fassbinder, De Palma e seus intrincados dispositivos cênicos. Outros já seguem o caminho contrário, dispensando a mise en scène no sentido técnico e recusando a composição excessiva ou o manejo virtuoso da câmera: Jean Eustache, Maurice Pialat, John Cassavetes, cineastas que cultivam um certo descontrole do quadro, da iluminação, dos atores, dos movimentos, que não hesitariam em trocar um enquadramento perfeito por um plano que estivesse precariamente enquadrado e iluminado, mas que registrasse a força de um momento, a presença inspirada de um ator, a energia singular de uma ação. O cinema, para eles, é a placa receptora – e intensificadora – de uma verdade emanada pelos corpos em cena.



Minha comunicação irá se concentrar nessas duas formas de resposta à crise da mise en scène na passagem clássico-moderno: de um lado, uma ultra-complexificação das técnicas de mise en scène; do outro, uma busca pelas formas mais brutas e imediatas de encenação. Pretendo avaliar de que modo isso foi determinante para a história recente do cinema.
Bibliografia

ASTRUC, Alexandre. “Qu'est-ce que la mise en scène?”. In: Cahiers du Cinéma, n. 100, outubro de 1959.



AUMONT, Jacques. Le cinéma et la mise en scène. Paris: Armand Colin, 2006.



BAECQUE, Antoine de. Cinefilia. Invenção de um olhar, história de uma cultura, 1944-1968. São Paulo: Cosac Naify, 2010.



BERGALA, Alain. “D'une certaine manière”. In: Cahiers du Cinéma, n. 370, abril de 1985.



BORDWELL, David. Figures traced in light. Los Angeles: University of California Press, 2005.



JOUSSE, Thierry e TOUBIANA, Serge. “Trafics d’influences: Entretien avec André S. Labarthe”. In: Cahiers du Cinéma, n. 443/4, maio de 1991.



LABARTHE, André S. “Mort d'un mot”. In: Cahiers du Cinéma, n. 195, novembro de 1967.



MAGNY, Joel. Maurice Pialat. Paris: Ed. Cahiers du Cinéma, 1992.



MOURLET, Michel. “Sur un art ignoré”. In: Cahiers du Cinéma, n. 98, agosto de 1959.



RIVETTE, Jacques. “L'âge des metteurs en scène”. In: Cahiers du Cinéma, n. 31, janeiro de 1954.