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  Título
Lisandro Alonso: uma viagem ao coração da nada
Autor
Hernan Rodolfo Ulm
Resumo Expandido
Em épocas onde a imagem cinematográfica parece encurralada na impotência de se oferecer como resistência frente aos avanços do biopolíticos, o cinema de Lisandro Alonso se apresenta como possibilidade de questionar os modos tradicionais do olhar. Criticar essas visões estereotipadas é uma estratégia de romper as ordens de visibilidade que regem os nossos modos de ser. Há uma espécie de “zumbido” que atravessa as imagens dos filmes de Alonso: o zumbido de um tempo “fora de seus eixos”. Em La libertad, Los muertos, Los Fantasmas e Liverpool o cineasta tenta, mediante procedimentos formais que singularizam sua produção, atingir uma zona temporal alheia aos modos acelerados pelos ritmos biopolíticos atuais. Se o biopoder atua na aceleração de um tempo que parece anular a experiência da duração, o cinema de Alonso faz uma aposta decidida por uma “poética da desaceleração”. Nesse sentido, sua estética é a da resistência, tanto pelas vidas que nela são mostradas , como pelo modo de salientar uma experiência do tempo que exige um novo modo de “partilha do sensível” . Cinema de palavras escassas, a obra de Alonso se concentra na construção do olhar para os gestos mínimos que constituem as vidas das personagens, oferecendo a oportunidade de capturar tempos que passam entre imagens, recusando os modos habituais da representação visual e da identificação do espectador. São personagens tomados no meio de viagens ao “coração do nada”, onde não há início nem fim, mas apenas a deriva que os leva para local nenhum. Em La libertad, somos confrontados com a vida de um lenhador que gasta seu tempo na rotina que o trabalho exige. Em Los muertos, um outro personagem parece ter cometido um assassinato, mas não vemos essa ação. Logo depois acompanharemos a jornada que o conduz à casa familiar onde nada fica explicado. Em Los Fantasmas, os protagonistas dos filmes anteriores perambulam pelos corredores de um teatro na ocasião da estréia de Los muertos. Perdidos nos labirintos de uma paisagem urbana que os ignora, eles mesmos, não se encontram no interior de um espaço cuja vida não compartilham. Finalmente em Liverpool, seu personagem principal busca um passado no qual já não a pertence e que a expulsa. Em cada um desses filmes, atravessados por vertiginosos planos-seqüencias, a câmera se torna “vagabunda” e se converte em testemunha ocular de um tempo anódino que impossibilita finais conclusivos. Nessa escultura temporal, portanto, os filmes de Alonso constroem histórias sem clausuras cronológicas. Estamos perdidos neste tempo que não tem coordenadas pré-estabelecidas, nessas viagens ao coração do nada, porque aqui o tempo abala a ordem do visível, singulariza “o que vemos e o que nos olha” e constitui a vida na sua existência solitária. Cinema “ascético”, a obra de Alonso pode ser pensada através da recorrência de recursos estéticos austeros e pela insistência dos silêncios como forma emblemática de assinalar o vazio em que as atuais ordens biopolíticas tem apagado processos de singularização da subjetividade. Tal estratégia aposta numa resistência da imagem cinematográfica, a partir da qual uma poética audiovisual é recuperada na sua dimensão política mais extrema: entre imagens e sons que partilham o visível e o vivenciável no mundo.







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