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  Título
Tempo fotográfico e tempo cinematográfico: reciprocidades
Autor
Susana Madeira Dobal Jordan
Resumo Expandido
Convencionalmente, a fotografia seria uma forma de reter o tempo e captar um momento onde a situação representada culmina em uma cena fixa e sintética. O cinema, ao contrário, representaria a duração e o movimento em sua extensão. Tal dicotomia vem sendo, no entanto, questionada em diversas produções contemporâneas que tanto do lado do cinema quanto da fotografia revertem as expectativas de tratamento do tempo geralmente atribuído a cada uma das áreas. Obras fotográficas passam, assim, a representar não o ápice do tempo e sim a sua duração; por outro lado, diversas obras cinematográficas têm se preocupado não em representar o fluxo do tempo e sim a sua retenção e embaralhamento, tendo como ponto de partida o uso da fotografia estática. A partir de duas obras projetadas na última Bienal de São Paulo e ainda de alguns exemplos da fotografia, será analisado aqui como a subversão do tempo, conforme concebido e atribuído ao cinema e à fotografia, tem se dado de maneira a realizar uma simbiose entre as duas áreas na qual o olhar fotográfico torna-se cinematográfico e o olhar cinematográfico refreia o fluxo do tempo com o uso da fotografia.



Henri Bergson opunha o tempo científico, baseado em marcos necessários a uma mensuração precisa, ao tempo vivido pela consciência que se baseia na duração e não pode ser submetido a rígidos parâmetros de medida. Gilles Deleuze fez eco a essa dicotomia ao opor imagem-movimento - ação baseada em reações corroboradas por elementos da linguagem cinematográfica como plano e contraplano que evidenciam uma sequência lógica, à imagem-tempo - relacionada a um tempo flexível e plural, englobando passado e futuro libertos da temporalidade racional. Os dois filósofos oferecem subsídios para se pensar como as possibilidades de representação do tempo ficaram configuradas em boa parte da história visual do século XX: coube à fotografia representar um tempo vivido como ápices flagrados pela câmera; coube ao cinema representar tanto a sequência de ação e reação quanto a sua subversão. Se por um lado, no entanto, a fotografia libertou-se da ideia do ápice, ou do instante decisivo, por outro lado, a subversão daquela fórmula inicial ocorreu no cinema não apenas pela presença da imagem-tempo no fluxo cinematográfico, mas também pela deliberada retenção desse fluxo com o uso que alguns cineastas fizeram da fotografia para corromper o tempo da ação e reação e recorrer ao que Deleuze, passando por Proust, chamou também de “tempo puro”, liberto das mensurações rígidas e da sequência de causa e efeito.



As obras em questão consistem de uma ou mais fotografias projetadas em sequência, como nas obras de Jean-Luc Godard e de David Claerbout apresentadas na última Bienal de São Paulo. A retenção e embaralhamento do tempo já foram problematizados também em outras obras cinematográficas que utilizaram a fotografia, como o já clássico La Jetée de Chris Marker ou o mais recente e menos conhecido El Pabellón Alemán (2008) do espanhol Juan Millares. Sem necessariamente trazerem um enredo, essas obras oscilam entre a a narrativa estática de uma cena pictórica e a narrativa sequencial não linear. Por outro lado, na Rússia, na Bahia e em Brasília, três fotógrafos tomados como exemplos de uma tendência mais ampla utilizam a imagem estática para representar a passagem do tempo sem retê-lo em um único instante e sim apreendendo a duração desse instante em imagens fluidas. O conjunto dessas obras apontam para como a transgressão dos limites do cinema e da fotografia tem se dado no diálogo entre ambos. Nas interseções e re-configurações de cada um no domínio oposto, revela-se tanto o congelamento de determinadas concepções do que seja o tempo atribuído a cada domínio visual, como a possibilidade da sua transgressão. Em outros termos, vê-se nessas obras como, em exercício de reciprocidade entre a fotografia e o cinema, a imagem filosofa ao oscilar entre o movimento e a consciência.

Bibliografia

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