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  Título
Em alerta: os corpos disponíveis de Tsai Ming-Liang
Autor
Julio Bezerra
Resumo Expandido
Num olhar sobre as conseqüências sociais e comportamentais da modernização asiática, o cinema de Taiwan tem revelado cineastas da maior importância. Tsai Ming-liang é um deles, e figura de maneira peculiar e solitária nesta cinematografia, resultado de uma estranha mistura de uma fascinação clínica pela observação/contemplação com uma mitologia toda particular, onde o convívio social somente intensifica a solidão. Tsai constrói filme a filme uma obra sólida e notadamente coerente, ancorada em um estilo cinematográfico ao mesmo tempo bastante característico e pouco variável: a preferência pelos planos médios e mais abertos de longa duração, a câmera fixa, as expressivas entradas e saídas de quadro, o estudo dos ritmos, a comicidade física, a delicada variação de foco, do fundo ao primeiro plano, etc. Isso sem contar com os freqüentes simbolismos (a começar pela água) e os solitários personagens, aparentemente incapazes de tirar prazer do sexo ou de qualquer outro tipo de interação social.



Por essas e outras, assim como Antonioni, Tsai costuma ser visto como “um artista do desenraizamento”. Seus filmes seriam a expressão da crise de identidade dos indivíduos das grandes metrópoles urbanas contemporâneas. Pois o objetivo desta apresentação é justamente voltar aos filmes para repensar essas afirmações já consagradas a respeito do cinema do taiwanês. Embora a influência do seminal cineasta italiano seja inegável, ela não seria, como nos diz Adrian Martin (2008), também uma redução, fonte para discursos já prontos? Em Tsai o espaço exterior não é mais o espelho que reflete uma interioridade. O silêncio não expressa a incomunicabilidade, mas parece buscar significados mais concretos. E o que vemos na tela não são exatamente personagens envoltos em crises existenciais e sim corpos opacos, manipuláveis, abertos à exploração do mundo.



Por mais tentador que possa ser interpretar as atitudes dos personagens como passivas, ou defini-los como andarilhos sem rumo, sonhadores vagos, o segredo ou essência deles está em outro lugar. Os atores em Tsai são corpos maleáveis, manipuláveis, abertos, estão sempre em um estado constante de disponibilidade, sempre em alerta. Comer, transar, andar, sentar em uma cadeira, virar torneiras, abrir portas, todas essas ações cotidianas tornam-se experiências sensoriais e emocionais. Hsiao-kang (modelo-protagonista-corpo) toca os objetos como uma criança, totalmente disponível para o mundo, aberto a toda a sensação.



Neste sentido, uma aproximação com cineastas como Buster Keaton e Jacques Tati talvez seja mais frutífera. O cinema do primeiro preza por uma espécie de subordinação da narrativa ao cômico, sempre interessado no impacto da modernidade do século XX sobre o corpo humano. Em muitos aspectos, seus filmes tratam de personagens que precisam dominar novas tecnologias, objetos e ambientes. O segundo não condena o mundo moderno, mas se debruça sobre a maneira pela qual o mundo se moderniza. E isso através de um personagem que se define por um comportamento, menos um fim em si (como era Chaplin) do que um catalizador que encarna uma certa desordem, um espírito infantil e animal que se perpetua ad ifinutam.



Como em Keaton e Tati, os personagens de Tsai são corpos constantemente convocados pelo mundo exterior. E estes corpos aceitam essa convocação por inteiro, imersos numa aventura que a cada instante lhes permite descobrir um pouco mais a respeito de um mundo que não cansa de surpreendê-los. A nossa aposta se faz então também em uma aproximação com a fenomenologia de Merleau-Ponty. Um filme como “Vive L’amour” (1994) se baseia em uma fé perceptiva no mundo, em uma adesão à experiência vivida pelos personagens. Para Ming-liang, em perfeita sintonia com Merleau-Ponty, a melhor maneira de se entender o humano é olhar como o homem se engaja na prática de sua existência. E assim, cada imagem vibra com a possibilidade de uma conexão latente a qualquer momento.

Bibliografia

GARDNIER, Ruy, OLIVEIRA, Luiz C. Jr. et all. O. “Cinema contemporâneo em debate” em Contracampo, n°78, 2005. Disponível Online em: http://www.contracampo.com.br/78/debatecinemacontemporaneo.htm



JOYARD, Olivier, REHM, Jean-Pierre, RIVIÈRE,Danièle. Tsai Ming-liang. Dis Voir, 1999.



MARTIN, Adrian. ¿Qué es el cine moderno? Santiago: Uqbar, 2008.



MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

________________________. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2003.

________________________. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naif, 2004.