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  Título
Dilemas entre indivíduo e sociedade no cinema de Gutierrez Alea
Autor
Claudio Roberto de Araujo Bezerra
Resumo Expandido
Tomás Gutiérrez Alea (1928-1996) é o mais importante e conhecido cineasta de Cuba. Sua história se confunde com a própria história do cinema cubano, pois foi um dos fundadores do ICAIC, instituto criado três meses após a Revolução para estimular a produção cinematográfica no país. Alea também teorizou sobre o seu ofício. Para ele, o cinema tem uma função social de melhorar a condição humana; deve ajudar o ser humano a refletir e agir para mudar a realidade. Sua obra é marcada por uma discussão dos desafios e impasses vividos pelos cubanos na construção de um mundo novo.



Ao contrário de Glauber Rocha, Julio García Espinosa e muitos outros cineastas oriundos do chamado Novo Cinema Latino-Americano, Gutiérrez Alea não estava preocupado em revolucionar por completo os princípios da narrativa clássica. Alea não tinha o interesse de romper com o espetáculo fílmico, mas agregar valor a essa capacidade do cinema de entreter o espectador, levando-o muitas vezes a uma projeção-identificação com o que vê na tela. Sua intenção era a de adicionar ao entretenimento o compromisso com a realidade revolucionária, temperando emoção com razão, para fazer o público discutir e tomar uma posição a respeito de situações e dilemas no mundo da vida, após a sessão de cinema. “A resposta do espectador que interessa não é somente a que pode dar dentro do espetáculo, mas a que deve dar diante da realidade”, diz ele (1984, p.53).



Segundo Gutierrez Alea, os filmes que negam o espetáculo em geral enfrentam dificuldades para atrair o interesse do público, e acabam mesmo preteridos por outros cuja intenção é tão somente a de fazer o espectador submergir em um universo meramente ilusório; uma fuga literal da realidade. Mas Alea chama a atenção para os problemas de uma interpretação superficial a respeito do espetáculo cinematográfico, pois não se trata de reproduzir de forma palatável um conteúdo social específico, ainda que revolucionário. Para ele, um cinema comprometido com a transformação social deve fazer questionamentos, lançar provocações e propor situações que impeçam uma postura contemplativa do público. Em outras palavras, o filme precisa ser uma obra aberta, não oferecer soluções simplistas para problemas complexos, nem substituir modelos de identificação que só reforçam valores estabelecidos e não estimulam a consciência crítica.



Para compor um cinema popular que alie espetáculo e realidade, e supere as dicotomias entre bons e maus, estimulando o senso crítico, Alea propõe uma conjugação do pathos defendido pelo cineasta Sergei Eisenstein com o distanciamento do teatro de Bertolt Brecht. O primeiro ressalta a importância de o espectador ser capturado pela emoção do espetáculo, deixar-se mesmo sair “fora de si” identificando-se com os protagonistas do filme; o segundo considera a identificação emocional um obstáculo à lucidez e defende uma ruptura estratégica com o fluxo contínuo do espetáculo, demarcando racionalmente a distância entre o mundo da arte e o mundo da vida. Segundo Alea, somente juntos os dois conceitos podem garantir a realização de um cinema de entretenimento que também estimule a reflexão, envolvendo o espectador num processo dialético, portanto, ativo, de alienação e desalienação.



Grande parte da obra cinematográfica de Gutierrez Alea é resultado de um esforço contínuo para colocar em prática suas reflexões teóricas. Este trabalho pretende discutir como as tensões entre a subjetividade do indivíduo e as exigências sociais, aspectos que desencadeiam o que Sigmund Freud (2010) chama de mal estar da civilização, se constituem como leitmotiv de três filmes de Alea: Memórias do Subdesenvolvimento (1968); Morango e Chocolate (1992); e Guatanamera (1995).

De modo geral, pretende-se mostrar o quanto o cinema popular proposto por Alea se mantém fiel aos elementos da narrativa cinematográfica clássica, e em que medida os problematiza, para impedir a postura contemplativa e desencadear uma atitude crítica do espectador.

Bibliografia

ALEA, Tomás Gutierrez. Dialética do espectador, trad. Itoby Alves Correa Jr. São Paulo: Summus, 1984.

AVELLAR, José Carlos. A ponte clandestina: Birri, Glauber, Solanas, García Espinosa, Sanjinés, Alea – Teorias de cinema na América Latina. Rio de Janeiro: Ed. 34; São Paulo: Edusp.

CHATMAN, Seymour. Story and discourse: narrative structure in fiction and film. Ithaca: Cornell University Press, 1980.

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme, trad. José Carlos Avellar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, in: Sigmund Freud – Obras completas, v.18, trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 13-122.

GAUDREAULT, André; JOST, François. A narrativa cinematográfica, trad. Adalberto Müller, Ciro Inácio Marcondes e Rita Jover Faleiros. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2009.

OROZ, Silvia. Tomás Gutierrez Alea: os filmes que não filmei, trad. Sílvia de Barros. Rio de Janeiro: Editora Anima, 1985.