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  Título
A retomada de filmes de família na obra de Péter Forgács
Autor
Beatriz Rodovalho
Resumo Expandido
O olho do furacão – A retomada de filmes de família na obra de Péter Forgács



Em 1933, o jovem holandês Max Peereboom comprou sua câmera 8mm. Max captou seus pequenos filmes de família até 1942, quando os Peereboom foram deportados para campos de exterminação pela Holanda nazista sob a administração do Comissário do Reich Arthur Seyss-Inquart. O Comissário também fazia seus filmes de família. Décadas depois, o cineasta e artista Péter Forgács retomou os filmes domésticos de Max e de Seyss-Inquart no filme The Maelstrom – a Family Chronicle (1997). O que eles escondem, os olhares, os sorrisos e os acenos de famílias tão distantes mas tão próximas?

Forgács afirma, “eu tento ver o invisível, tento des- e reconstruir o passado humano por meio de efêmeros filmes privados”. Baseada em The Maelstrom, essa comunicação busca refletir sobre a prática de Forgács de recapturar imagens do passado à luz do presente. Em seus filmes e instalações, como The Bartos Family (1989), Free Fall (1996) (ambos da série Private Hungary), The Danube Exodus (1997) e El Perro Negro (2005) – para nomear apenas alguns títulos de sua extensa filmografia -, Forgács reescreve em imagem e som uma micro-história, uma história “de dentro”, uma História feita de histórias e de lembranças em película. Os heróis de Forgács são cineastas amadores e seus próximos – pessoas comuns cuja crônica particular é ofuscada pela historiografia oficial. Max, György, Zoltán, Angelos, Capitão Andrásovits… seus filmes captaram o mundo visto por esses amadores. Suas câmeras, porém, também capturaram um mundo que eles não percebiam, um mundo que Forgács, em seu tempo, com seu tempo, tenta desvendar, expondo essas imagens a novos sentidos e novos olhares. Ele estabelece, assim, como ele escreve, “uma conexão entre o arquivo, a arte, a psique individual e coletiva, e o passado como presente. A história é tempo presente”.

Nesse contexto, analisando os procedimentos estéticos de Forgács para exumar os filmes de família de Max, esta apresentação tentará, por sua vez, revelar as tensões essenciais provocadas por eles. Como Forgács reorquestra os velhos e arranhados tesouros familiares de Max? Como ele envolve o espectador na saga íntima dos Peereboom? Em seu “jogo do filme-tempo”, como ele o chama, nós refletiremos sobre a pluralidade de visões e de sujeitos na narrativa e sobre a fusão de filme íntimo e documento histórico, de documentário e ficção, do passado, do presente e do futuro, de memória e esquecimento e da pulsão de vida e de morte inscrita nessas imagens retomadas no filme.

Remontando fragmentos desses relicários íntimos de felicidade, de desejo e de memória, o trabalho de Forgács consiste em conferir-lhes outros significados possíveis e construir outras relações com o passado e o futuro por meio da experiência cinematográfica. Ele tenta, na verdade, desarquivar o arquivo. O que se encontra no olho desse furacão?

Bibliografia

ISHIZUKA, Karen L, ZIMMERMANN, Patricia R (dir). Mining the Home Movie: Excavations in Histories and Memories. University of California Press, Berkeley, 2008.

ODIN, Roger (dir.). Le film de famille: usage privé, usage public. Méridiens Klincksieck, Paris, 1995.

_, _ (dir.). Le cinéma en amateur. Communication, n˚68. Editions Seuil, 1999.

Artigos publicados no site: www.peterforgacs.hu:

ALPHEN, Ernst van. «Towards a New Historiography: Péter Forgács and the Aesthetics of Temporality».

FEIGELSON, Kristian. «Péter Forgács - Cinéaste de la banalité». 2005

HABIB, André. «It’s just a waste of time to walk and play tennis». 2007

NICHOLS, Bill. «The Memory of Loss: Péter Forgács’s Saga of Family Life and Social Hell – Bill Nichols in Dialogue with Péter Forgács». 2005.

ODIN, Roger. «La famille Bartos et la série Hongrie Privée de Péter Forgács – Ou comment rendre l’Histoire sensible». 2005.

RENOV, Michael. « Historical discourses of the unimaginable : Péter Forgács’ The Maelstrom »