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  Título
Dzi Croquettes: arte subversiva dos palcos para o cinema
Autor
Matheus Araujo dos Santos
Coautor
Cíntia Guedes Braga
Resumo Expandido
Tendo em vista que “o processo de produção de imagens cinematográficas implica necessariamente em inscrever nestas imagens uma subjetividade”, como afirma Silvio Da-Rin ao falar sobre o cinema documentário em Espelho Partido (2004, P.145), propomos uma análise do filme Dzi Croquettes (2009), dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, a fim de observar a produção de subjetividades a partir dos estudos queer. Queer, na língua inglesa, significa estranho, esquisito, excêntrico, raro. É também um termo usado para designar sujeitos que se afastam das normativas hegemônicas de sexos, gêneros e desejos. Por muito tempo o termo foi usado apenas como injúria, xingamento, modo de subjugação. A partir dos anos 90, a palavra sofre um processo de positivação e começa a ser utilizada pelos próprios sujeitos que assumem politicamente uma posição desviante. O centro passa a não ser necessariamente a referência desejada. O trânsito, o limiar, a margem assumem um poderoso valor estratégico de transgressão. Contrariando a estratégia essencialista, na qual assumir identidades sexuais como biologicamente dadas seria uma forma de resistência de gays e lésbicas, a perspectiva queer entende esse posicionamento como assimilacionista e reacionário, optando por valorizar a diferença num posicionamento pós-identitário que politiza a chamada 'abjeção', os corpos não representados, social e politicamente, e portanto, não inteligíveis em uma perspectiva hegemônica. Muitos autores apontam, então, para uma possível discussão queer na produção artística, que estaria presente, por exemplo, no trabalho de artistas como Francis Bacon e Jan Saudek. No campo do cinema, que aqui nos interessa, alguns autores apontam o surgimento do New Queer Cinema (Straayer, 1996). Um cinema que, rejeitando uma abordagem sensacionalista, apostaria numa maior atenção às diferentes subjetividade não-normativas. Dentre os cineastas que fariam parte de tal movimento nomes como Pedro Almodóvar, Derek Jerman, Gus Van Sant e John Cameron Mitchell são comumente citados. Mas podemos pensar numa arte queer no Brasil? O que teríamos de levar em consideração a respeito das especificidades da construção histórica do país para discutirmos tal possibilidade? Existe uma estética queer no cinema? Ou para sê-lo basta contar uma história queer? Com estas questões em mente, propomos uma discussão sobre a representação cinematográfica de uma experiência queer na arte brasileira setentista a partir do filme citado, que conta a trajetória de um grupo de treze bailarinos e atores que, em pleno regime militar ditatorial, revolucionou a linguagem teatral e o cenário artístico brasileiro, conquistando admiradores que, mais do que ver os espetáculos, adotavam um estilo de vida Dzi e, como eles, falavam e agiam de modo a perturbar os alicerces que estruturam uma sociedade sexista e homofóbica.
Bibliografia

BUTLER, Judith. Gender Truble. Feminism and the Subversion of Identity. 3 ed. New York, Routledge, 2006. DA-RIN, Silvio. Espelho Partido. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004 MULVEY, Laura Cinema e Sexualidade. In: Ismail Xavier (org.). O Cinema do Século. Rio de Janeiro: Imago, 1983, p.123-139. PRINS, Baukje; MEIJER, Irene Costera. Como os corpos se tornam matéria: entrevista com Judith Butler. In Revista: Estudos Feministas. Florianópolis, v. 10, n. 1, janeiro de 2002. RABINOW, Paul. Representações são fatos sociais: modernidade e pós – modernidade na antropologia. In: Antropologia da razão. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. p. 71-108. RICALDE, Mariacruz Castro. Feminismo y teoria cinematográfica. In: Escritos, Revista Del Centro de Ciências Del Lenguaje, 20, p.23-48. Puebla, 2002 STRAYEER, Chris. Deviant eyes, deviant bodies: sexual re-orientation in film and videos. New York: Columbia University Press, 1996.