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  Título
A Morte da Televisão segundo Lost
Autor
Arlindo Ribeiro Machado Neto
Resumo Expandido
Já é lugar comum dizer que, atualmente, as audiências estão se tornando crescentemente fragmentadas, dividindo seu tempo entre miríades de possibilidades de mídias, canais e plataformas. Nas últimas décadas, os assim chamados telespectadores migraram para conteúdos mais especializados, dirigidos a nichos específicos, através de tecnologias de oferta de multicanais (cabo principalmente, mas também conteúdos distribuídos em VHS, Laserdisc, DVD, Blue-Ray e internet). Hoje, com o crescimento da disponibilidade de canais on demand, da auto-programação e dos dispositivos de busca na internet, parte cada vez mais expressiva da audiência está se deslocando para além do nicho, em direção a formas de recepção (ou participação) individualizadas. Com a crescente convergência das telecomunicações com a internet e inúmeras alternativas de recepção (celulares, televisores portáteis, dispositivos para automóveis, players multiuso tipo IPod etc.), tanto a indústria, quanto os provedores de conteúdos estão se defrontando com níveis de complexidade, dinâmicas de mudança e pressões para inovar jamais experimentados em tempos anteriores

Para este século que se inicia, os prognósticos são de muita fragmentação e multiplicidade de direções. Os profissionais de televisão e do audiovisual em geral vivem um momento de estupefação, desafio e necessidade de riscos em direção a alguma coisa que ainda não se sabe bem o que poderá vir a ser. Vamos viver um período de muita experimentação de novos modelos de televisão, onde alguns vingarão e outros provavelmente fracassarão. Tudo indica que estamos vivendo o fim de um modelo de televisão e o surgimento de experiências ainda não muito nítidas, mas suficientemente expressivas para demandar pesquisa e análise.

Lost foi considerado, à época de seu lançamento, como o nascimento da TV 2.0. O seriado coloca uma série de enigmas que acontecem numa ilha estranha, onde vão parar os sobreviventes da queda de um avião da Oceanic Airlines, mas as soluções desses enigmas não estão necessariamente no programa. Quem se interessa pela série precisa buscar as informações necessárias para a inteligibilidade da série num universo paralelo, principalmente na internet, onde sites criados tanto pelos produtores quanto pelos fãs discutem possíveis soluções aos mistérios que acontecem na ilha. Como diz Henry Jenkins, essa é a televisão da era da internet, feita para ser discutida, dissecada, debatida, prevista e criticada. Lost é também um caso típico daquilo de Jenkins chama de transmedia storytelling (narrativa transmidiática), ou seja, uma narrativa que se passa em vários meios diferentes ao mesmo tempo, sem que um meio repita o outro.

Ainda que Lost seja produto de uma mega-rede da televisão norte-americana (ABC), tenha sido concebido para exibição em circuito aberto (broadcast) e seu “piloto” seja considerado o mais caro de toda a história da televisão, mesmo assim ele já aponta características daquilo que os americanos chamam de uma post-network era, como que experimentando possibilidades de sobrevivência da televisão no mundo dos computadores, da telefonia móvel, da rede telemática planetária e da convergência dos meios. A internet principalmente tem mudado de modo profundo a maneira de ver televisão, com os sites de fãs e os sites oficiais dos programas, além da disponibilização gratuita de programas ou a custo de assinaturas e da disponibilização de material excedente. A televisão, ao contrário, tem se mostrado muito conservadora para entrar integralmente na era digital. Lost prometeu mudar tudo isso e entrar de cabeça na nova era. Resta saber se os outros programas vão segui-lo e, preferencialmente, superá-lo. Resta saber, enfim, até quando a televisão tal como a conhecemos vai continuar e em que momento as pressões por mudanças serão tão fortes que a questão se restringirá a mudar ou morrer.

Bibliografia

Albuquerque, Afonso de (2010). “Lost e a Ficção Televisiva Transmídia”. X Estudos de Cinema e Audiovisual. Mariarosaria Fabris et alii (org.). São Paulo: Socine, 2010.

Berman, Saul; Niall Duffy; Louisa Shipnuck (2006). The End of Television as We Know It. Somers: IBM Global Services.

Formaggio, Dino (1962). L’Idea di Artisticità. Milano: Ceschina.

Jenkins, Henry (2008). Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph.

Pearson, Roberta (2007). Lost in Transition”. Quality TV: Contemporary American Television and Beyond. J. McCabe & . Akass, ed. London: Tauris.

Regazzoni, Simone (2009). A Filosofia de Lost. Rio de Janeiro: BestSeller.

Toledo, Glauco Madeira de (2009). Análise da Inserção de Elementos Narrativos Inéditos do Seriado Transmídia Lost em Seu Material Promocional”. In Revista, ano 3, n. 6.

__________ (1910). “L for Lost”. Palestra proferida durante a XI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual , São Paulo.