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  Título
Arte da teleficção no Brasil contemporâneo: uma abordagem histórica
Autor
Roberto Abdala Junior
Resumo Expandido
As reflexões que apresentamos a seguir surgiram ao longo de nossa trajetória acadêmica, incluindo as pesquisas realizadas durante o mestrado e o doutorado. A investigação do doutorado nasceu a partir de dois “eventos” ocorridos em 1992: a exibição, pela TV Globo, de uma minissérie cuja trama transcorria no período de vigência da ditadura, chamada Anos Rebeldes. Na mesma época ocorreria uma sequência de ações políticas que culminaram com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, dentre as quais se destacaram as manifestações públicas que contavam com a presença maciça de estudantes. O intrigante dos dois eventos foi a incontestável relação entre eles, pois os estudantes, nas manifestações das quais participavam, referiam-se deliberadamente à minissérie.

A hipótese de pesquisa era que a obra de teleficção, ao trazer as mobilizações dos anos 1960 para a tela da TV, dialogava, não somente com as memórias daqueles anos revolucionários, mas, também com as memórias das experiências mais recentes de uma parcela importante da população brasileira, os então emergentes “movimentos sociais”. Nessa perspectiva, as ações dos estudantes seriam uma “resposta” às duas categorias de memórias legitimadas – de militares e militantes de esquerda – e aquelas em processo de legitimação – relativas aos movimentos sociais.

Nosso argumento é que as elites (latu sensu), consideradas como legítimas porta-vozes da nação – inclusive parte dos intelectuais, militantes de esquerda, políticos, além dos militares – não foram capazes de reconhecer a nova configuração da sociedade brasileira e identificar os traços que caracterizavam sua cultura, nesse momento histórico preciso. Assim, coube à teleficção – como arte ordinária (Williams, 3003) – mais atenta ao público e seu imaginário, criar uma narrativa que "dialogasse" e descrevesse as "memórias coletivamente compartilhadas" pelos brasileiros comuns, memórias nascidas de suas lutas cotidianas.

A minissérie assumiria, pois, um papel de “obra de arte ordinária” característica da cultura brasileira, capaz de elaborar, organizar e descrever experiências que vinham sendo partilhadas por segmentos da população (Williams, 2003), mas que ainda não eram articuladas em discursos reconhecidos como parte das memórias nacionais – narrativas que pudessem ser reconhecidas (recepcionadas) como expressão dessas experiências comuns.

O problema nos obrigou a visitar uma série de reflexões e postulados sobre a abordagem da teleficção que buscasse apreender sua “recepção histórica”. Não se tratava, certamente, de avaliar a recepção, strictu sensu – como ela tem sido abordada na comunicação. Noutros termos, era preciso apreender como uma obra de teleficção foi recepcionada pelo “grande público” na época em foi concebida e exibida, sem ter a disposição os elementos empregados nas formas tradicionais de pesquisar a “recepção”. Assim, buscou-se encontrar uma abordagem que trouxesse questões mais gerais ligadas à recepção para o campo da história/História.

Ao aprofundarmos esta análise, articulamos as teses de Vygotsky e Bakhtin em diálogo com as proposições de Williams (1979/2003) da sociologia da cultura e Rüsen que vem retomando a “didática da história” como campo específico da ciência histórica. Importa observar que o amplo quadro teórico apresentado pelos autores é ilusório, pois a formação básica de Vygotsky, Bakhtin e Williams assentam-se nas obras de Marx, embora não no “marxismo” ortodoxo de seus contemporâneos (Williams, 1979). Além disso, todos eles – inclusive Rüsen – atribuem um papel fundamental às práticas culturais, aos aspectos antropológicos e históricos da aprendizagem, concedendo lugar de destaque aos processos comunicacionais, considerando a linguagem como ferramenta privilegiada nos processos que envolvem os homens e suas práticas cotidianas.
Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. La educacion desde la comunicación. Bogotá: Grupo Editorial Norma, 2003.

_____ Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva. Tradução: Jacob Gorender. São Paulo: SENAC, 2004. 2ª ed.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

_____ Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

WERTSCH, James V. V. La mente en acción. Buenos Aires: Aique Grupo Editor S/A, 1999.

_____ Voices of Collective Remembering. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.

WILLIAMS, Raymond. La larga revolución. Tradução Horacio Pons. Buenos Aires: Nueva Visión, 2003.

_____ Literatura e marxismo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.