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  Título
Imagens do futebol no cinema: o jogo no filme Linha de passe
Autor
Ana Maria Acker
Resumo Expandido
A impressão de que no Brasil o futebol aparece pouco nas telas é enganosa, pois há uma grande quantidade de registros documentais de jogos desde os primórdios do cinema e de filmes de ficção em que esse esporte, se não é protagonista, está presente de algum modo na trama. A constatação é do jornalista Luiz Zanin Oricchio no livro Fome de bola – cinema e futebol no Brasil (2006). Assim, faz-se necessária uma observação de como o cinema brasileiro contemporâneo recria a manifestação esportiva mais significativa do país. Essa proposta busca estabelecer um debate em torno dessas questões por meio da análise da sequência inicial de jogo do filme Linha de Passe (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas. Será verificado o quanto a ficção se aproxima de registros documentais do esporte no cinema: o filme Olympia (1938), de Leni Riefenstahl, e o cinejornal Canal 100, de Carlos Niemeyer. Conforme o diretor Oswaldo Caldeira, o Canal 100 criou uma nova forma de filmar o jogo e a torcida (CALDEIRA In ORICCHIO, 2006, p. 310). Exibido nas salas de cinema antes das sessões entre 1959 e 1986, o cinejornal valorizava o futebol como espetáculo e celebração popular. Havia uma ênfase nos detalhes plásticos por meio da câmera lenta, a perfeição das jogadas, a reação da torcida em uma montagem que buscava realçar e, porque não dizer, guiar a emoção do público. Espetáculo, promoção da beleza do corpo são objetivos seguidos à risca pelo documentário Olympia (1938), de Leni Riefenstahl. Produzido durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, com grande aporte financeiro do governo nazista de Adolf Hitler, o documentário exaltava os ideais de pureza da raça, defendidos na Alemanha naquela época, e que dariam impulso ao genocídio de judeus durante a Segunda Guerra. Se a película for observada sem a aura política, contudo, pode ser percebida como uma realização competente de celebração estética e poética do esporte. Para Victor Andrade de Melo, o fato de ter sido usado como veículo de propaganda nazista não invalida o potencial artístico do filme (MELO In MELO & PERES, 2005, p. 62). Na análise sobre a maneira como esses registros documentais influenciaram Linha de Passe, a sequência inicial apresenta uma mistura de jogo real entre São Paulo x Corinthians com imagens de uma partida ficcional em que o personagem Dario (Vinícius de Oliveira) tenta mostrar seu talento como jogador. A rapidez dos cortes, a montagem em um ritmo mais rápido das cenas documentais do Morumbi se difere um pouco dos padrões de câmera lenta do Canal 100 e de Olympia. Porém, no jogo ficcional, no momento em que Dario recebe um passe e mata no peito, o andamento diminui, o movimento de câmera fica mais lento e exalta a construção da jogada. O enquadramento nas pernas dos atletas que correm pelo campinho de terra é outra referência às produções de Carlos Niemeyer. A luz é mais estourada no jogo de Dario, enfatizando as diferenças entre os dois ambientes – campos de várzea e jogo profissional. Em Lendo as imagens do cinema, Laurent Jullier e Michel Marie observam a função da luz na construção das personagens: “Além da direção na qual ela cai, a própria quantidade de luz que cai sobre o sujeito pode enriquecer um retrato psicológico” (JULLIER & MARIE, 2009, p. 38). Ou seja, a luz de tom amarelado reafirma o sofrimento do aspirante à atleta naquela situação. Linha de Passe se vale em parte dos modelos de registro do esporte apresentados por Olympia e Canal 100. A opção pelo espetáculo é comedida. Entretanto, todo o drama de uma partida de futebol se faz presente na tela, sobretudo por meio da montagem e sua contundência nos closes. Não há uma estetização do jogo na produção de Walter Salles e Daniela Thomas. Mesmo em abordagem diferenciada, a inspiração para a encenação do futebol segue em Canal 100 e Olympia, o que só ratifica a força que essas duas obras têm no imaginário de diretores quando o objetivo é recriar esporte na tela.
Bibliografia

AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995. AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas: Papirus: 1993. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. JULLIER, Laurent; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2009. MELO, Victor Andrade de. Cinema e Esporte – diálogos. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2006. MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria (orgs.). O Esporte vai ao Cinema. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2005. ORICCHIO, Luiz Zanin. Fome de bola – cinema e futebol no Brasil. São Paulo: Imprensa oficial, 2006.