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  Título
A circulação do blockbuster brasileiro no mercado de salas
Autor
Karine dos Santos Ruy
Resumo Expandido
Esta proposta é resultado de um estudo sobre a circulação do filme blockbuster brasileiro no mercado nacional de salas na primeira década do século 21. O interesse do estudo foi interpretar características relevantes da atividade cinematográfica no Brasil no período, observando os fatores que interferiram no sucesso comercial de alguns filmes nacionais – títulos que registraram mais de 1 milhão de espectadores, segundo dados da Agência Nacional de Cinema, a Ancine. Para tanto, foram abordados no decorrer da pesquisa temas como as transformações nos aparatos institucionais voltados ao apoio e fomento ao cinema brasileiro, a atuação da Globo Filmes no mercado cinematográfico e o crescimento na associação das distribuidoras majors a produções locais. O estudo buscou compreender o cinema brasileiro como um sistema, analisando o contexto no qual ele está inserido e as variantes que influenciam a sua trajetória contemporânea, sob o olhar metodológico da Economia Política da Comunicação.

Tentando analisar as circunstâncias responsáveis por alguns resultados diferenciados do cinema brasileiro contemporâneo, nos deparamos com o entrecruzamento de três fatores: o interesse por parte dos realizadores em produzir filmes com capacidade de estabelecer um diálogo e, consequentemente, despertar interesse do grande público; a parceria com as distribuidoras estrangeiras, através do Artigo 3º da Lei do Audiovisual; e, por último, o ingresso da Rede Globo no campo cinematográfico através do selo Globo Filmes.

A existência de tais elementos não serve como garantia de sucesso para uma produção. Mas, por outro lado, essa combinação apareceu como uma constante entre os filmes brasileiros com as maiores bilheterias desde o ano 2000. Tal constatação indica que os filmes nacionais com uma trajetória satisfatória no mercado interno seguiram um padrão de produção/comercialização próprio à indústria audiovisual norte-americana: associação a monopólios com o aporte financeiro e midiático capaz de fazer o produto circular de forma eficiente (através da distribuição) e atrair a atenção da audiência consumidora desse meio (através de publicidade e cross media).

O interessante, nesse sentido, é ressaltar que a atividade cinematográfica brasileira tem encontrado, por meio desse tipo de parceria, um caminho eficaz para melhorar a circulação e o público do filme nacional. Contudo, não podemos avaliar essas condicionantes sem chamar a atenção para o valor artístico do cinema brasileiro contemporâneo. Desde o final da década de 1990, acompanhamos uma nova geração de diretores estrearem e amadurecerem no cinema. Muitos desses profissionais vieram da publicidade e da televisão, bagagem que introduziu experimentações aos filmes, com inovações na estética e na narrativa. Além disso, esse intercâmbio se refletiu também numa aproximação da estética do filme à da televisão, facilitando a aceitação de alguma obras por parte do público.

A bem-sucedida trajetória de um grupo de filmes brasileiros recentes parece, até o momento, estar contribuindo para a formatação de um novo tipo de cultura em torno da cinematografia nacional, ajudando a disseminar preconceitos que rondavam o imaginário do público, chamando a atenção dos críticos para a nova safra de produções e refletindo positivamente na trajetória de outras obras. O interessante desse processo está na reaproximação do espectador do filme brasileiro. O sucesso de filmes com Se eu fosse você, Tropa de Elite, 2 Filhos de Francisco, Os Normais, Cidade de Deus, entre outros, mostra ao público que o cinema nacional não deve ser encarado como um gênero. Pelo contrário, a atividade cinematográfica tem mostrado capacidade em explorar diversos gêneros, mantendo sempre algum tipo de referência local.

Bibliografia

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BUTCHER, Pedro. Cinema brasileiro hoje. São Paulo: Publifolha, 2005.

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