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  Título
O som na mise-en-scène do cinema de Carlos Reygadas
Autor
Hugo Leonardo Castilhos dos Reis
Resumo Expandido
Na história do cinema, consolidou-se certa tradição de cineastas que assentaram suas marcas estilísticas explorando o uso do plano-sequência e o trabalho cuidadoso da mise-en-scène. Dentro dessa tradição, buscaremos nos concentrar no estudo de como o som compõe a encenação em planos de longa duração, articulando-se a outros elementos como a iluminação, o cenário, o figurino, a movimentação e a performance dos atores e dos objetos no quadro.

Inspirado no método e nas reflexões de David Bordwell (2008) sobre a encenação e o estilo no cinema, nosso objetivo é tentar compreender como a interação entre diálogos, ruídos e música – no plano-sequência – contribui para produzir a percepção de momentos sensoriais e de diferentes temporalidades em filmes que buscam desenvolver uma poética cinematográfica específica, calcada em instantes contemplativos.

Embora nossa pesquisa pretenda percorrer todos os trabalhos do diretor, estabeleceremos um recorte mais específico para o desenvolvimento deste trabalho, analisando somente o filme Batalha no Céu (2005), nos excertos em que o diretor Carlos Reygadas explora o uso do plano-sequência associado a um eloquente trabalho de som. Partiremos de uma análise crítica dos conceitos e categorias encontrados em Michel Chion sobre as possibilidades estéticas e narrativas do som, para então dialogar com as análises de David Bordwell sobre a encenação no cinema e as funções do estilo por ele definidas.

Dentre as quatro funções do estilo (denotativa, expressiva, simbólica e decorativa) definidas por Bordwell, acreditamos que o som poderá ser analisado como uma espécie de “quinta função”, no sentido de permitir ao diretor desenvolver um estilo e uma temporalidade conveniente ao seu trabalho, entendendo o som como parte da totalidade dinâmica do espaço fílmico em planos de longa duração.

Em seus filmes, Reygadas elabora construções sonoras que valorizam a interação entre música, ruídos e silêncio, aproximando-se de certa concepção que dilui as fronteiras e hierarquias entre esses elementos (KASSABIAN, 2003). Ao mesmo tempo em que dialoga com a narrativa, pensamos que a porção sonora do filme tem papel preponderante na construção da poética de Carlos Reygadas, tornando-se assim elemento extremamente relevante em nossa análise dos significantes dentro do plano.

Como marca do trabalho sonoro dos filmes de Reygadas, merece destaque também a aposta do diretor na manipulação do som como uma maneira especial de criar configurações inusitadas e relações ambíguas entre os personagens e as locações. “A música me ajuda a criar a imagem. Eu sinto a textura e velocidade da música e a partir daí, eu tenho a ideia do que filmar. [...] O som é muito criativo, não se sujeita a nenhuma regra”. (REYGADAS, em BADT, 2006, p.22, tradução nossa). Ainda se tratando da intervenção dos aspectos sonoros no espaço fílmico, será importante utilizarmos como apoio o acervo conceitual de R. Murray Schafer (1991) sobre ruído, silêncio, timbre, textura e paisagem sonoro-musical.
Bibliografia

BADT, Karin. No slave to realism: an interview with Carlos Reygadas. In: Cineaste, vol.31, n.3, junho de 2006. Disponível em . Acesso em 15 jul. 2010.

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas: Papirus, 2008.

BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. Film Art: an introducion. New York: McGraw-Hill, 2008.

COSTA, Fernando Morais. Som e ritmo interno no plano-sequência. In: CÁNEPA, L.; PAIVA, S.; SOUZA, G. (Orgs.). Estudos de cinema e audiovisual Socine. São Paulo: Socine, v. 11, 2010. p. 131-141

CHION, Michel. Audio-Vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.

KASSABIAN, Anahid. The sound of new film form. In: INGLIS, Ian (Org.). Popular music and film. London: Wallflower Press, 2003.

SCHAFER, R. Murray. O ouvido pensante. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1991.