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  Título
Doutor
Autor
Cid Vasconcelos de Carvalho
Resumo Expandido
A CONCEPÇÃO DE REALISMO NA PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA EFETUADA DURANTE O FASCISMO

Partindo da primeira trilogia realizada pelo realizador Roberto Rossellini, produzida durante os últimos anos (1941-3) do Fascismo no poder na Itália, e sua relação com a produção ficcional que lhe antecede ou lhe é contemporânea, por realizadores como Alessandro Blasetti, Augusto Genina, Francesco De Robertis, pretende-se observar o surgimento de um discurso crítico e proposições estéticas que pretendem um novo tipo de realismo cinematográfico. Para a melhor compreensão do mesmo, e sua extensa influência sobre o movimento que o sucederia, o Neo-Realismo, faz-se mister uma observação em termos de história/discurso fílmicos tal como pensado por autores como Chatman (1978), ou seja tanto em termos de elaboração narrativa quanto visual diferenciadas. Ou seja, um “modo de representação” (Burch, 1992) ou “de prática cinematográfica” (Bordwell, 2008), que apresenta suas especificidades perante modelos com os quais se defronta, como o hollywoodiano e o soviético. E que dialoga intensamente igualmente com a produção documental efetivada pelo Instituto LUCE, inclusive na incorporação de material de arquivo. Procura-se compreender também o discurso crítico fomentado no bojo de sua produção e recepção em revistas da época como Cinema e Lo Schermo, assim como o discurso produzido retrospectivamente. Não se trata, portanto, de uma compreensão restrita e auto-explicativa a partir de recursos metodológicos como a análise fílmica somente, já que tal produção dialoga com os preceitos ideológicos e estéticos fascistas mais amplos, aproximando-se ou distanciando-se dos mesmos. Dentre as estratégias discursivas privilegiadas por Rossellini para destacar a sua proposta de realismo se encontra a de coralidade (coralitá), termo que é tido como dado no momento de sua reflexão contemporânea e retrospectiva (anos 1950) ganha uma apreciação distinta por parte de estudiosos que se detiveram sobre sua obra. O termo coralitá, reminiscente da tragédia grega, sem dúvida se disseminou de forma bem mais ampla no universo da música, como no canto coral, que surge na Europa por volta do primeiro milênio. Com relação ao contexto em questão, a expressão, segundo Sitney foi utilizada pela primeira vez pelo crítico Carlo Trabuco em relação ao filme Roma: Cidade Aberta, enquanto para Bondanella (1993) ela seria parte da priorização dos valores coletivos sobre os individuais disseminados pela crítica fascista, portanto ocorrendo já no período que antecede ao neo-realismo. Muitas questões podem ser pensadas quando se conjuga a complexa relação entre o texto fílmico da trilogia de Rossellini e a estética buscada por certos pensadores fascistas. A coralitá presente desde os seus primeiros trabalhos e que será tão louvada em suas obras da fase neo-realista pode ser considerada como uma idiossincrasia autoral nesse primeiro momento ou antes como uma aproximação da prerrogativa fascista de que o “senso das massas” substitui o individual como centro da vida; sua produção anônima substituiria as ambições individuais (Ben-Ghiat, 2001: 113)? A primeira hipótese, aparentemente, aponta em sentido senão contrário, pelo menos diverso dessa compreensão da coletividade fascista. Quando se toma, por exemplo, a seqüência final em que os soldados enfermos do navio-hospital saúdam a chegada do encouraçado ao porto em La Nave Bianca, visivelmente inspirada na cena final do Encouraçado Potemkin (1925), de Eisenstein, não existe uma multidão indistinta enquanto coletivo uníssono de teor quase abstrato , mas personagens que já haviam sido apresentados em situações distintas antes e que voltam a sê-lo inclusive nesse momento final.
Bibliografia

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTARCO, Guido. Il Cinema Fascista – Il Prima e Il Dopo. Bari: Edizioni Dedalo, 1995.

BAZIN, André. O Cinema – Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1990.

BEN-GHIAT, Ruth. Fascist Modernities: Italy, 1922-1945.Berkerley: U. of California Press, 2001.

BONDANELLA, Peter. The Films of Roberto Rossellini. New York: Cambridge U Press, 1993.

BORDWELL, David. On the History of Film Style. Cambridge/Londres: Harvard U. Press, 1997.

BRUNETTE, Peter. Roberto Rossellini. Berkerley/Los Angeles/Oxford: University of California Press, 1996.

BURCH, Noel. La Lucarne de l’Infini. Paris: Nathan, 1992.

CHATMAN, Seymour. Story and Discourse: Narrative Structure in Fiction and Film. Ithaca: Cornell U Press, 1978.

SEKNADJE-ASKENÁZY, Enrique. Roberto Rossellini et la Seconde Guerre Mondiale: Un Cinéaste entre Propagande et Realismé. Paris: Harmattan, 2000.

SITNEY, P. Adams. Vital Crises in Italian Film. Austin: University of Texas Press, 1995.