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  Título
As fronteiras entre documentário e ficção em experiências de formação
Autor
Alexandre Ferreira de Mendonça
Resumo Expandido
Autores como Nietzsche, Foucault e Rancière vêm inspirando na contemporaneidade um diagnóstico bastante contundente a respeito do funcionamento de nossas instituições de ensino. Longe de promoverem o fortalecimento da cultura, o desenvolvimento de potencialidades singulares, da autonomia e da capacidade de reflexão e criação, as práticas pedagógicas hegemônicas estariam diretamente vinculadas ao exercício de um regime de saber-poder vigente e teriam um sentido eminentemente disciplinador, adestrador e homogeneizante. O papel das ciências em tal contexto é notável. Não só elas fornecem a maior parte dos conteúdos curriculares veiculados em sala de aula como também cumprem o papel de legitimar o próprio modelo de educação em questão. Mais que isso, o modo pelo qual o discurso cientificizante é apresentado não só pressupõe como tende a aprofundar em nós a tendência a se estabelecer um modo de relação ingênuo com os dispositivos de produção da verdade, com o próprio mito e valor da verdade, com a própria vontade de verdade.

Por outro lado, tais autores não deixam de apontar para a possibilidade de se investir em outras experiências de formação, que não balizadas pelas tendências identificadas acima. Experiências capazes de promover processos de formação singularizantes, heterogeneizantes, de fortalecer a autonomia, de promover o estabelecimento de conexões inusitadas e de, assim enriquecer, o que quer que se possa chamar de cultura. Em maior ou menor grau, tais tematizações tendem a apontar para a arte como anti-modelo a partir do qual processos de formação alternativos deveriam se organizar. A arte entendida como território próprio ao uso do artifício, onde o artifício não é recalcado, mas assumido e ostentado, funcionaria como porta-voz de tendências que rivalizam radicalmente com aquelas que se manifestariam através da ciência.

Não se trata de incorporar as artes ao modelo disciplinar, de se disciplinarizar ou curricularizar o ensino de artes, ou de se instrumentalizar a arte como ferramenta didática a serviço do ensino de conteúdos curriculares. Trata-se antes de fazer com que o contato com a arte interfira nos processo regulares de formação e promova a sua desestabilização através da alteração de nossa relação com tais processos (quer sejamos educando ou educadores). É nesse sentido que Alain Bergala, em “A hipótese-cinema”, propõe que o cinema ocupe o lugar de alteridade absoluta em meio às práticas pedagógicas vigentes – o cinema como grande outro (o outro da escola, o outro em relação à maior parte de nossas relações cotidianas, instância que nos coloca em contato com o mundo do outro, com tantos outros mundos). O cinema, essa arte que já nasceu moderna, talvez possa desempenhar essa papel de modo mais eficiente que outras artes. Tendo surgido em um momento em que as artes procuravam se livrar do regime da representação tradicional e investiam na investigação acerca da natureza do artifício, talvez o cinema não só resista mais violentamente à captura por parte da lógica que rege nossas práticas pedagógicas como também inspire mais intensamente a criação de linhas de fuga. Bom exemplo dessa potência própria do cinema talvez se evidencie e se manifeste em seu mais alto grau no crescente volume de produções que tornam problemáticas as fronteiras que separariam o documentário da ficção.

Partindo deste horizonte teórico e tomando como referência central o filme “Verdades e mentiras” de Orson Welles, o objetivo do trabalho aqui proposto é discutir a potência pedagógica das produções audiovisuais que investem na suspensão dos limites entre documentário e ficção, discurso verídico e discurso falsificante e, conseqüentemente, entre ciência e arte, verdade e mentira. Pretende-se avaliar de que maneira o contato com tais produções poderia servir de ponto de partida para a instauração de processos de autoformação heterogêneos e singularizantes em que a própria vida passa ser vista como obra de arte.

Bibliografia

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: Pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE -FE/UFRJ, 2008.



DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. Tradução de Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1990.



FOUCAULT, Michel. _________________. Microfísica do Poder. Tradução e organização de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

_________________. Vigiar e punir. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1977.



NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre educação. Tradução de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2007.



___________________.A gaia Ciência. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.



___________________. Genealogia da Moral. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Brasiliense, 1988.



RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual. Trad. Lilian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.