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  Título
As imagens da família e a projeção da intimidade em Beleza Americana
Autor
PALOMA COELHO
Resumo Expandido
O estudo das imagens elaboradas pelo cinema adquire relevância sociológica a partir do momento em que o filme é entendido como um construtor e difusor de ideologias, de percepções, de valores e de imaginários socialmente reconhecidos e reproduzidos. As relações entre o filme e a sociedade implicam não apenas na construção de “realidades” por meio de elementos muito próximos do cotidiano dos espectadores, mas também na construção de modelos e de ideais de comportamento, muitas vezes aceitos como naturais e espontâneos.

A crescente exploração da vida íntima e privada pelas mídias audiovisuais sugere reflexões sobre a influência das imagens na orientação de comportamentos, de percepções e de estilos de vida, considerando-as como um campo de construção simbólica que pode (re) criar valores e reforçar modelos e códigos amplamente reconhecidos e compartilhados pelas sociedades.

É nesse sentido que se propõe pensar sociologicamente como uma produção cinematográfica pode elaborar e difundir discursos que, muitas vezes, influenciam nas formas com que os indivíduos percebem e avaliam a sua “realidade”, considerando o filme como o resultado de articulações de maneiras simultâneas de criar e perceber o mundo. Com base na constatação de que a percepção é socialmente construída (SORLIN, 1985), aquela que é produzida pelo cinema não só comunica com as visões de mundo dos espectadores, como pode (re) criar outras visões e ideologias.

A partir da análise do filme Beleza Americana (American Beauty, Sam Mendes, 1999), o intuito é problematizar a construção de discursos e imaginários sociais no tocante ao universo da vida privada por meio de um tema bastante explorado pelo cinema – a família. Considerando a presença de referenciais de família já cristalizados e idealizados nas sociedades ocidentais, pretende-se discutir o modo como as organizações familiares são percebidas e abordadas nesse filme em relação ao que se concebe como “modelos familiares”.

A repercussão de Beleza Americana em função dos debates que essa produção gerou sobre a família e os valores propagados pela sociedade norte-americana nos permitem pensar de que forma um filme pode influenciar na revisão de valores e na construção social do imaginário por meio da produção de sentidos que, ao serem interpretados pelos indivíduos, tornam-se, muitas vezes, parte de seu universo simbólico e passam a compor sua rede de significados.

No caso da família, muitas são as referências socialmente compartilhadas do que possa ser o seu significado, o que aponta para a instituição de modelos que sugerem a existência de uma “família ideal”. Maria Rita Kehl (2003) afirma que essa idealização de um modelo de família gera parâmetros de “normalidade” e “anormalidade” que dificultam a legitimação e o reconhecimento de arranjos familiares divergentes, colocando-os em uma situação de marginalidade e desvio de conduta. A análise de Beleza Americana, assim, centra-se na elaboração de significados em torno das configurações familiares, a partir da forma como a narrativa constrói suas imagens do que seria o sentido de “família” em contraponto ao que é sugerido como “não-família”.

O filme, como uma “criação do imaginário para o imaginário” (MENEZES, 1996, p. 89), possui sua lógica própria, uma experiência singular calcada na articulação espaço-temporal, cujo sentido se exprime no próprio contexto fílmico. Sob essa perspectiva, podemos pensar o filme a partir das relações que o constituem, dos esquemas valorativos que pautaram a sua elaboração, bem como os sentidos a ele atribuídos, ao invés de centrar a análise nos aspectos exteriores às imagens, no contexto social de sua produção.

Compreende-se, assim, o cinema como construtor de imaginários, por meio dos quais os indivíduos elaboram sua tábua de valores para pensar o mundo e interpretá-lo, pois “na medida em que identificamos as imagens da tela com a vida real, pomos as nossas projeções-identificações referentes à vida real em movimento”. (XAVIER, 1983)
Bibliografia

KEHL, Maria Rita. Em defesa da família tentacular. 2003. Disponível em: . Acesso em: 03 jan. 2011.



MENEZES, Paulo Roberto Arruda de. Cinema: imagem e interpretação. Tempo Social, São Paulo, v.8, n. 2, p. 83-104, out. 1996.



SORLIN, Pierre. Sociologia del cine: la apertura para la historia de mañana. México: Fondo de Cultura Economica, 1985. 262p.



XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1983, 475p.