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  Título
Leon Hirszman em Cuba: contribuições para o cinema político
Autor
Reinaldo Cardenuto Filho
Resumo Expandido
No início dos anos 1980, em conseqüência do desgaste sofrido por uma dramaturgia que por vezes pecou pelo excesso de dogmatismo, representantes do cinema cubano ficcional procuraram aderir a um conceito mais modernizado de filme político, a partir do qual o esforço em atenuar o didatismo ideológico viria acompanhado pela pesquisa de uma forma estética sedutora, com capacidade para ampliar o diálogo com os espectadores. Segundo a historiadora Mariana Villaça, no livro Cinema cubano: revolução e política cultural, esta autocrítica, em parte provocada pelo cansaço do público com os filmes de denúncia, levou os cineastas daquele país à busca por uma renovação estética que implicasse na produção de ficções de melhor qualidade e na adesão a narrativas mais atraentes, que utilizassem a emoção como recurso para a comunicação com a audiência.



Em Cuba, as reflexões em torno desta proposta de atualização do cinema político ocuparam pelo menos dois espaços significativos de debate: o festival internacional del nuevo cine latinoamericano e a revista Cine cubano. Existente desde 1979, com a proposta de ampliar o contato entre as filmografias engajadas da América Latina, o festival dedicou uma parte significativa de sua terceira edição, em dezembro de 1981, a promover uma série de discussões sobre os caminhos a serem trilhados pela militância no cinema. Através do seminário Cine e imaginación poética, cujas comunicações foram publicadas em Cine cubano, buscou-se definir um projeto de renovação a partir do qual o filme político deveria abandonar definitivamente o simplismo dos esquematismos ideológicos para assumir uma dramaturgia mais sofisticada que não temesse as ambigüidades ou o exercício da livre expressão poético-formal.



Neste sentido, uma das principais intervenções do seminário, feita pelo diretor argentino Fernando Birri e divulgada pela edição 102 da Cine cubano, buscava avaliar equívocos históricos do cinema militante na America Latina – entre outros, o de idealizar a câmera como dispositivo transformador da realidade social – para propor um engajamento que articulasse a síntese entre a expressão estética e a crítica política. Já o dramaturgo cubano Nicolas Dorr, através da comunicação Urgencia e imaginación: términos compatibles, concluía que não bastava aos cineastas apenas uma abordagem aguerrida dos problemas sociais. Tratava-se de procurar uma forma “más diáfana, sugerente y humana de comunicación (...) [en] un ejercicio constante y sin tibiezas de la experimentación formal” (DORR, 1982: 28).



Justamente neste momento em que o cinema cubano concentrava esforços na discussão sobre a sofisticação da dramaturgia política, o diretor Leon Hirszman foi convidado a participar do III festival internacional del nuevo cine latinoamericano com a exibição de Eles não usam black-tie (1981). Após gerar comoção no público e na crítica especializada, o filme consagrou-se o principal vencedor do festival, recebendo do júri presidido pelo cineasta Humberto Solás o Grand Premio Coral. De forte apelo emocional e evidente qualidade estética, o longa-metragem de Hiszman, com o cuidado de evitar uma representação dogmática da atividade grevista, assumindo as contradições provenientes da classe popular, foi recebido com entusiasmo em Cuba, como um filme que poderia contribuir para os caminhos futuros do cinema político. Em entrevista publicada no número 102 da Cine cubano, o cineasta acaba incorporado aos debates, defendendo que “Hay que tener conciencia que tenemos que dirigirnos a amplias capas de la población (...). Que cuando valoremos al hombre culturalmente lo veamos siempre en condiciones reales de transformación y no con una visión paternalista de esa trasformación” (HIRSZMAN, 1982: 159, 160).



Através do estudo da recepção de Eles não usam black-tie em Cuba, o objetivo desta comunicação é analisar a passagem de Hirszman por aquele país e como ele é incorporado às reflexões em torno das perspectivas de renovação do cinema político.
Bibliografia

BIRRI, Fernando. “Ocupar el lenguaje”. Cine cubano, nº 102. Havana, 1982, p. 2-4.



DORR, Nicolas. “Urgencia e imaginacion: términos compatibles”. Cine cubano, nº 102. Havana, 1982, p. 28-30.



HIRSZMAN, Leon. “La respuesta es si”. Entrevista concedida a Gerardo Chijona. Cine cubano, nº 102. Havana, 1982, p. 154-160.



PELÁEZ, Rosa Elvira; GALIANO, Carlos. “III Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano: ‘Ellos no usam smoking’, de Brasil, y ‘La decisión de vencer’, de El Salvador, ganan el Grand Premio Coral en ficción y documental”. Granma. Havana, 14 dez. 1981, p.5.



PELÁEZ, Rosa Elvira. “Hondas convicciones llevaron a Hirszman a filmar ‘Los que no usam smoking’. Declaraciones del realizador brasilleño.” Gramma. Havana, 27 dez. 1981, p. 5.



PLASENCIA, Azucena; PEREZ, Enrique Valdes. “Pese a las presiones del imperialismo un festival exitoso”. Boletín, sem data, p. 42-47.



VILLAÇA, Mariana. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.