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  Título
Narrativas em rede e articulações discursivas nas interfaces contemporâneas
Autor
Mariana Tavernari
Resumo Expandido
A relação entre os agenciamentos interativos e a relevância da iconicidade nos ambientes digitais compõem os regimes socioimagéticos vigentes na contemporaneidade, determinando condições de circulação, percursos de sentido e deslocamentos narrativos. Considerando que as imagens digitais perdem a referência ao exterior e evidenciam a convencionalidade do signo, propõe-se investigar o estado das articulações discursivas da contemporaneidade. Assim, esse artigo justifica-se não apenas em função do sincretismo implicado nas mídias digitais, mas também pelo comprometimento teórico com os modos de produção e recepção das narrativas contemporâneas, articuladas às problemáticas discursivas do sujeito e dos processos de agenciamento em rede.



Considerando que as características imersivas e interativas favorecem o desenvolvimento dos prazeres genuínos e intrínsecos à narrativa no ciberespaço, entre eles a imersão e a agência e que a narratividade – sucessividade temporal de sua referencialidade em forma de determinado construto espaço-temporal – cria um mundo e o povoa com personagens e objetos, as narrativas em rede impõem-se também como uma rede implícita de narrações, formada por nós de posições enunciativas e ações em dimensão temporal que formam laços de sociabilidade colaborativa. As metáforas de rede e de rizoma (Deleuze; Guattari, 1995a, 23) atuam como um modelo conceitual de conectividade que aplicado aos sistemas sociais que designa um conjunto de atores (pessoas, instituições ou grupos) e conexões (interações ou laços sociais).



Serão analisadas as formas de suspensão de descrença na referencialidade dos acontecimentos narrados, tratados como jogo, tanto no sentido de uma pacto de ilusão e crença quanto de capacidade de encenação e representação do sujeito (distinguindo sujeito de interator e ambos de indivíduo), a partir de pactos de negociação que pressupõem um caráter de agenciamento. Enquanto nos blogs a instância da autoria emerge como estratégia de interpretação e efeito de sentido de singularidade por meio de textos não lineares (Werthein, 2001), outros gêneros emergentes na rede estão menos vinculados a uma autoria, pois as narrativas em rede são fruto de uma multiplicidade híbrida das produções simbólicas online e offline. Assim, as temáticas da circulação do enunciados, a relação entre os gêneros discursivos emergentes e aqueles já consolidados (Marcuschi, 2004) e o conceito de autoria são pontos de partida para o artigo, que aborda as narrativas em rede, visando criar um dispositivo de classificação das molduras do ciberespaço, relacionadas a novas formas de identificação e projeção com dispositivos técnicos. O tempo da imagem nas mídias digitais, ao contrário do cinema, segue o fluxo do tempo do espectador, colocando a questão da dimensão temporal que estabelece-se justamente na relação de simultaneidade entre o tempo do interator e o tempo da imagem, problematizando o gênero discursivo e as marcas da enunciação no enunciado icônico.



Tanto como narração diegética, ou seja, o ato de contar a alguém que algo aconteceu, quanto como narração mimética, ato de mostração (Bordwell, 1985), propõe-se investigar quais as formas de combinação dessas formas para a construção de um dispositivo metodológico de análise. Trata-se de analisar a relação entre os processos de imediação e hipermediação (Bolter & Grusin, 2000) na rede e as facetas empregadas no desejo de atingir e representar o real, se miméticas (como no Second Life), diegéticas (como nos blogs). Um caminho pela cultura da interface (Johnson, 2001) e da simulação, sugerindo uma sensibilidade cultural e social baseada nas formas de agenciamento coletivas e procedimentais.

Bibliografia

BOLTER, J,D.; GRUSIN, R. Remediation: understanding New Media. Cambridge: The MIT Press, 2000.

BORDWELL, David. Narration in the Fiction Film. Madison: University of Wisconsin, 1985

CHARTIER. R. Os desafios da escrita. São Paulo: Ed.Unesp, 2002.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995a. v. 1. (Coleção TRANS).

JENKINS, H. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

JOHNSON, S. Cultura da interface. Rio:Jorge Zahar Editor, 2001

MAINGUENEAU, D. Cenas da Enunciação. Curitiba: Edições Criar, 2006

MARCUSCHI, L. A. & XAVIER, A. C. Hipertexto e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

MURRAY, J. Hamlet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Itaú Cultural: Unesp, 2003.

RYAN, M-L. Narrative across Media: The Languages of Storytelling. Lincoln, London: University of Nebraska Press, 2004.

WERTHEIN, M. Uma história do espaço de Dante à Internet. Rio:Jorge Zahar, 2001.