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  Título
Imagens e processos do novo cinema militante brasileiro
Autor
Gabriel de Barcelos Sotomaior
Resumo Expandido
Esta apresentação mostrará alguns pontos centrais da pesquisa de Doutorado em Multimeios, na Unicamp, “Documentário e movimentos sociais em seu desenvolvimento recente (2008 a 2012)”, projeto financiado pela Fapesp. O objetivo do trabalho é estudar a nova produção do chamado documentário militante, tendo como referência principal os filmes exibidos na Mostra Luta, de Campinas. Dentro da análise fílmica e do estudo sobre os processos de produção destes grupos, buscarei colaborar com alguns elementos para a reflexão de questões sobre o documentário militante e da relação do cinema com os movimentos sociais. Pretende-se, aqui, pensar esta produção militante agora na contemporaneidade, a partir das relações, técnicas, estéticas, sociabilidades e processos envolvidos.



Para este estudo, partiremos de dois eixos de análise:

1) Trabalhar o documentarismo nas relações alternativas de realização, distribuição e exibição do cinema militante. Junto a isso, refletir sobre a construção de outras formas de sociabilidade baseadas na autogestão das organizações e na sua luta para romper com as relações desiguais e opressivas dentro do nosso sistema, além de questionar os locais tradicionais de circulação do cinema industrial. Neste sentido, o filme (pensando em todos seus momentos) é uma construção coletiva, horizontal, que pretende contestar não apenas uma concepção elitista e excludente da arte, mas a forma como são geridas as ideias, os pensamentos, o material simbólico que dá sustentação ao contexto em que estamos inseridos. Para isso, é importante a citação de autores que questionaram a figura sacerdotal do intelectual-especialista e pensaram a potencialidade expressiva que se dá a partir de vários pontos e do protagonismo de diferentes sujeitos, como Walter Benjamin em “O autor como produtor” e em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”.



2) Outro eixo importante é considerar as relações entre o documentário e aquilo que é captado, as possibilidades do visível e as questões éticas, estéticas, sociais e políticas do registro da materialidade e das manifestações dos sujeitos filmados. Se o visível e as potencialidades da imagem fotográfica (indicial) foram saudadas, exaltadas e pensadas desde o princípio do cinema e da fotografia, dentro da realização e dos estudos do documentário houve uma violenta desconstrução de premissas do documentário: representar o real, encontrar o outro e tentar entendê-lo, produzir conhecimento, intervir no mundo.

Por outro lado, convivemos com uma realidade de possibilidades audiovisuais em aparelhos portáteis que trazem a multiplicidade das produção de imagens documentais. Portanto, coloca-se em questão a ação do documentarista dentro do mundo histórico, pensando, acima de tudo, nas relações e compromissos éticos que o sujeito vai estabelecer no lugar onde está intervindo com a sua câmera. Para Bill Nichols (2008, p.27), os documentaristas tornam “tangíveis os aspectos de um mundo que já compartilhamos". Aí residiria o grande poder do documentário, onde temos acesso a assuntos que necessitam de atenção. Para o autor, “estas visões colocam diante de nós questões sociais e atualidades, problemas recorrentes e soluções possíveis.” Assim, “o vínculo entre o documentário e o mundo histórico é forte e profundo”. Nichols fala de um “engajamento com o mundo”.

Dentro do processo de análise fílmica iniciado, constatei quatro temas relevantes para uma investigação sobre estas obras: “o espaço”, “o movimento”, “a História, o tempo e a memória” e o “corpo”. A luta por terra, moradia e estes espaços presentes dentro do filme; o movimento das pessoas e da câmera; o tempo do filme e a relação com a História, além da memória como um campo de disputas e, por fim, o corpo como protagonista daquele que recusa a sujeição. Nesta apresentação, mostrarei alguns destes elementos no filme “Qual o centro?”, do Coletivo Nossa Tela, de São Paulo.

Bibliografia

BALAZS, Bela. “O homem visível”. In XAVIER, Ismail. A experiência do cinema. São Paulo: Graal, 2008



BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In Walter Benjamin, obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993

___________________. “O autor como produtor”. In: ______________________________





BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003



BRIGADA DE AUDIOVISUAL DA VIA CAMPESINA: Lutar sempre! Ensaios sobre audiovisual e construção da realidade. São Paulo: 2009 (apostila)



NEVES, Braulio. “Máquinas retóricas livres do documentário ciberativista”. In: Doc online: revista digital de cinema documentário. Universidade de Beira Interior/Unicamp. ed.8/ 2010. Disponível em: http://www.doc.ubi.pt/08/artigo_braulio_neves.pdf



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2008