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  Título
Desmontar/remontar imagens: o ensaio fílmico e o espectador-montador
Autor
Consuelo Lins
Resumo Expandido
A mesa de trabalho de um pesquisador, o atelier de um artista, a sala de montagem de um cineasta. Espaços de desmontagem e remontagens, de desordem e de reordenações provisórias, de reflexão e de produção de obras fecundas. A prática de desmontar/remontar imagens e documentos faz parte do trabalho de muitos cineastas e artistas, mas também de historiadores. Fundamentos teóricos e abordagens podem divergir, assim como as exigências ligadas a cada campo de atuação, mas muitas características dos métodos dos historiadores permeiam trabalhos de cineastas como Chris Marker, Agnes Varda, João Salles (Santiago/2007), Harun Farocki, Susana de Sousa Dias (48/2009) ou ainda de artistas como o francês Christian Boltansky e a brasileira Rosangela Rennó, entre outros. Essa mesa temática dialoga com idéias, autores e cineastas que nos permitem rediscutir questões importantes para pensarmos a retomada de imagens já existentes no contexto artístico atual. A noção de documento tem ganhado atenção renovada e nos interessa investigar, primeiramente, convergências entre certas práticas de historiadores e de cineastas contemporâneos, aproximando o gesto de pesquisadores da Nova História ao modus operandi de ensaístas do cinema. Em segundo lugar, relacionar o documento, tal como foi elaborado, a partir dos anos 60, por historiadores como J. Le Goff, e imagem de arquivo, tal como foi pensada por G. Didi-Huberman: ambos são “objetos” indecifráveis e sem sentido enquanto não forem trabalhados na montagem. A noção de documento se amplia em muitos filmes, como também acontece na prática da Nova História e tudo pode servir. Verdadeiros, mentirosos, pouco importa. No limite, nos lembra Jacques Le Goff (1990, p.: 472-473), “todo documento é mentira. Cabe ao historiador (ou ao artista, diríamos nós) não fazer o papel de ingênuo”, e (…) “começar por desmontar, demolir esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as condições de produção dos documentos-monumentos”. Em terceiro lugar, a relação entre o documento audiovisual e o espectador, relação que implica considerar a história complexa dos olhares que se colocaram sobre o documento. Veremos que alguns filmes fazem do espectador um montador em potencial, um decifrador por excelência, apto criar sua própria apreensão das configurações audiovisuais propostas.
Bibliografia

COMOLLI, J-L. “Mauvaises Frequentations”, in Images documentaires, numero 63, Regard sur les archives. Paris: 2008.

DIDI-HUBERMAN, G. Images malgré tout. Paris: Les Editions de Minuit, 2003.

___________________ Quand les images prennent position – L’oeil de l’histoire 1. Paris: Les Editions de Minuit, 2009.

__________________ L’oeil de l’histoire, Remontages du temps subi T2. Paris: Les Editions de Minuit, 2010.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

GIL, J. Portugal hoje: o medo de existir. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2004.

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LE GOFF, J. Documento/Monumento, in História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.

__________ Foucault e a “nova história”. In Plural, Sociologia, USP, São Paulo, 10: 197-209, 2º sem. 2003.

RANCIÈRE, J. Le spectateur emancipé. Paris: La fabrique, 2008.