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  Título
Narrativas em diálogo: a telenovela em múltiplas plataformas
Autor
Mariane Harumi Murakami
Resumo Expandido
A modernização da telenovela brasileira, desde o seu surgimento, não transforma apenas o seu modo de fazer, mas transforma principalmente a experiência do espectador diante desse produto audiovisual. Ela passa de uma experiência ficcional baseada em um mundo fantasioso (a “era Magadan”) para uma experiência ficcional que pretende parecer cada vez mais “realista”, em que os diversos elementos da trama apontam para o seu cotidiano (sem esquecer da utilização de mecanismos de representação naturalista) – a “era realista”, inaugurada por Beto Rockfeller. Em tempos de convergência, o espectador não abandona a narrativa televisiva, mas tem a oportunidade de buscar (ou não) em outras mídias – revistas, internet, celular, etc. - conteúdos para enriquecer a sua experiência ficcional. São as narrativas “transmídia” (Jenkins 2009), histórias que se desenrolam em múltiplas plataformas, cada uma delas contribuindo de forma distinta “para nossa compreensão do universo; uma abordagem mais integrada do desenvolvimento de uma franquia do que os modelos baseados em textos originais e produtos acessórios” (Ibidem, p.384).

Ao longo dos anos, o discurso da telenovela passa a ser construído no sentido de instaurar discursivamente a identificação do espectador junto à narrativa audiovisual; a partir do pacto de ficção, criamos um desejo de imersão, e com foco no mundo ficcional, não o questionamos, mas o reforçamos. No caso dos conteúdos transmídia, pressupomos que se desenvolva uma extensão do pacto ficcional para além da tela e da narrativa televisiva. Dessa forma, propomos que esse processo de identificação e extensão/reforço da experiência ficcional constrói-se discursivamente, através de mecanismos de produção de sentido. Ou seja, que é possível identificar no próprio discurso da telenovela estratégias discursivas que operam na chave da opacidade/transparência, tentando ocultar os mecanismos de realização, não só na telenovela, como nas narrativas existentes em outras mídias – todas com o intuito de criar uma experiência de “imersão” na realidade ficcional. Esses mecanismos estariam presentes no funcionamento interno da narrativa da telenovela (como produto primário), nos produtos transmídia (secundários), assim como na relação dialógica que essas duas instâncias estabelecem – afinal, esses discursos têm que dar conta dos diferentes “espectadores-modelo”.

Long (2007), em sua tese sobre transmedia storytelling, traz o conceito de códigos de Barthes (S/Z, 1970) para detalhar o funcionamento dessas narrativas; segundo o autor, tanto as narrativas primárias quanto as secundárias carregam em seus discursos esses códigos que, na experiência ficcional, estabelecem relações entre elas, em movimentos intertextuais e interdiscursivos.

No caso da telenovela, postulamos que esses códigos internos funcionariam, discursivamente, como cláusulas de um duplo contrato – o factual, de um lado, e o ficcional, por outro – produzindo forças ao mesmo tempo centrípetas (apontando para uma realidade exterior à ficcional) e centrífugas (reforçando a imersão no mundo ficcional). Consideramos que esse duplo contrato foi se transformando ao longo da história da telenovela, e na era da convergência, ele insere novas cláusulas: a trama principal mantém esse duplo contrato interno e, ademais, aponta para um conteúdo que é exterior à mídia televisiva, enquanto esse conteúdo transmídia insiste em um retorno à matriz (alimentando o consumo da primeira).

Assim, entendendo essas questões, propomos nesta comunicação investigar, a partir das considerações de Long (2007) sobre os estudos de Barthes, a construção dos mecanismos discursivos que relacionam, na era transmídia, as narrativas-matriz e as narrativas transmídia. Como objeto de investigação, apresentaremos a telenovela TiTiTi (2011): a trama televisiva e suas narrativas transmídia, mais especificamente os conteúdos digitais disponíveis no site oficial da telenovela (http://tititi.globo.com).
Bibliografia

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2006



BARTHES, R. S/Z. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.



BORDWELL, D. Now leaving from platform 1. David Bordwell’s website on cinema. Publicado em 19 ago. 2009. Disponível em: . Acesso em 26 ago. 2010.



ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. 8. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



ECO, U. A obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1997.



JENKINS,H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009.



LONG, G. Transmedia Storytelling: Business, Aesthetics and Production at the Jim Henson Company. (Master's dissertation, Comparative Media Studies, MIT, 2007).Disponível em: . Acesso em: 10 ago 2010.



MURRAY, J. Hamlet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Unesp, 2003.



XAVIER, I. Discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004.