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  Título
Metrópolis revisitada: experiência estética e universo transmidiático
Autor
Isabel Almeida Marinho do Rêgo
Resumo Expandido
A convergência midiática é um tema que nasce das mudanças tecnológicas, industriais, culturais e sociais no modo como as obras circulam pelas mídias em nossa cultura. Nas narrativas transmidiáticas, segundo Jenkins (2009), há um fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos, o termo transmídia refere-se a esse processo de cruzamento criativo entre as mídias.

Nesta pesquisa será abordada a noção de universo transmidiático; mais do que personagens e as tramas que as envolvem, o ponto de partida para a investigação é o universo Metrópolis e a experiência estética suscitada por ele.

Diversas obras foram inspiradas no universo criado por Thea von Harbou em Metrópolis, seu romance de 1925. A narrativa foi adaptada para os cinemas por Fritz Lang em 1927. Em 1949, Osamu Tezuka finalizou o mangá Metrópolis. A DC Comics lançou em 1989 uma HQ em que o Super-Homem habita Metrópolis. No clipe da música Express yourself, Madonna dança no cenário de Metrópolis e ao final imprime a frase célebre do livro: “Entre o músculo e o cérebro deve mediar o coração” (HARBOU, 1925), o videoclipe foi dirigido por David Fincher em 1989. O anime Metrópolis foi realizado em 2001 por Rintaro. O universo criado por Harbou serviu ainda de inspiração para o cenário do RPG (Role Playing Game) Unhallowed Metropolis, lançado em 2010. Para citar apenas alguns exemplos de obras em suportes diversificados que revisitaram o universo Metrópolis.

Considerando experiência estética a partir de uma perspectiva relacional, a discussão não se esgota apenas na obra de arte, o desenvolvimento da experiência estética se dá por meio de sua expressão, da partilha dessa sensibilidade, que pode ser disparada por uma obra de arte. “A expressão da experiência, ao ‘transmiti-la’, viabiliza uma aprendizagem em público do próprio sentir” (BRAGA, 2010, p.84). A circulação dessa expressão depende de uma linguagem que possa circular, estimulando e aperfeiçoando as condições de exercício da experiência; as obras audiovisuais oferecem esses recursos, se prestam como fonte e expressão de experiência estética.

O romance, e pela notoriedade e difusão, o filme Metrópolis dispararam experiências estéticas diversas, algumas delas foram expressas em obras audiovisuais. Neste trabalho a investigação parte de algumas obras audiovisuais que remontam o universo de Metrópolis: filme de Fritz Lang, anime de Rintaro e videoclipe de David Fincher, considerando as obras escolhidas parte do processo de experiência estética gerado pelo universo construído por Harbou em seu romance. Essa capacidade de provocar experiências tornou Metrópolis um universo transmidiático, constantemente adaptado em diferentes suportes. A investigação parte dos elementos do universo do romance expressos na forma de outras narrativas; considerando o princípio de que a experiência estética não estaria exclusivamente no nível psicológico, mas envolvendo um alargamento do conhecimento do real.

Thea von Harbou afirmou que seu romance não é atual nem do futuro, não fala de um lugar nem serve a causa, partido ou classe. Possui uma moral desprendida de uma verdade fundamental: “Entre o cérebro e o músculo deve mediar o coração” (HARBOU, p.10, 1977 [1925]).

Kracauer (1974) acentua a importância da popularidade dos temas narrativos e pictóricos em um filme, para o autor, a reiteração persistente desses motivos os caracteriza como projeções externas de anseios íntimos. As diferentes formas narrativas de Metrópolis partilham temas impressos no universo original e demonstram inquietações sociais. A analogia da relação dos humanos entre si e as máquinas envolvendo racionalidade, emoções e ações é abordada a partir da analogia com o corpo humano: “Entre o cérebro e o músculo deve mediar o coração”. Cada obra reconstroi esses conceitos de forma diferente, de acordo com a experiência de cada criador e adaptando-se ao suporte narrativo.

Bibliografia

BRAGA, José Luiz. Experiência estética & mediatização. In GUIMARÃES, César; LEAL, Bruno Souza; MENDONÇA, Carlos. Entre o sensível e a Comunicação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010, p.73-88.



DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, [1912] 2010.



GUIMARÃES, César; LEAL, Bruno Souza; MENDONÇA, Carlos. Entre o sensível e a Comunicação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

HARBOU, von Thea. Metropolis. Barcelona: Martínez Roca, [1925] 1977.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense, [1790] 1995.

KRACAUER, Siegfried. From Caligari to Hitler: a psychological history of the german film. New Jersey: Princeton University, [1946] 1974.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O nascimento da tragédia, ou, Helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, [1874] 2006.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.