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  Título
Fluxos, imagens e sons: a produção audiovisual online
Autor
Ananda Carvalho
Resumo Expandido
As obras audiovisuais contemporâneas contam com um espaço de exibição em constante crescimento: a Internet. Essa questão pode ser constatada na proliferação dos mais diversos vídeos caseiros disponíveis na Internet e no sucesso do YouTube, além dos blogues e fotologues. Entretanto, grande parte desses espaços caracteriza-se como telas de exibição que apenas transportam o que antes era visto numa tela de cinema ou de televisão.



Dentro desse panorama, pergunto-me quais as características que envolvem a publicação das imagens e audiovisuais na rede? Perante a quantidade de imagens online, busco produções que partem das configurações e conceitos que caracterizam o fluxo da Internet. O presente artigo observa os processos de criação audiovisual que articulem as configurações do espaço em rede. Para isso, considera os trabalhos "youTAG: gerador e de-indexador de vídeos online" (Lucas Bambozzi, 2007) e "Vista On Vista off # 2" (Denise Agassi, 2010).



"youTAG" (Projeto contemplado pelo Rumos Itaú Cultural Arte Cibernética 2006/2007 e exposto em Emoção Art.ficial 4.0) é uma net art que oferece ao público a possibilidade de escolher palavras e frases. A partir dessa decisão, uma ferramenta busca no YouTube três vídeos relacionados e os reedita. Algumas vezes, a ferramenta troca a palavra escolhida pelo usuário por outra. Em certas ocasiões, os vídeos até foram nomeados com essa palavra, mas surpreendem pelas relações que estabelecem.



Essa temática também pode ser observada na net art e instalação "Vista On Vista off # 2"(exibido na Mostra Labmis 2010 no Espaço Redondo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo). Nesse trabalho, a artista Denise Agassi cria uma ferramenta que busca e exibe vídeos a partir de palavras-chave que remetem a paisagens, vistas e pontos turísticos. O resultado é uma edição em tempo real de um vídeo que pode mudar a qualquer momento de acordo com o que é postado na rede. O trabalho é exibido num espaço redondo. A paisagem é revelada em múltiplas telas sobrepostas, cujas dimensões variam de acordo com a distância real da localidade. E o visitante da exposição, assim como alguém que publicou um vídeo na Internet, pode recriar essas paisagens.



Para analisar esses trabalhos, retomo a teoria de montagem conceitual proposta por Sergei Eisenstein e a montagem metalinguística do método Cine-Olho de Dziga Vertov que, nos anos 1920, apresenta e fundamenta a possibilidade de uma escrita audiovisual. A ideia de correlação proposta por Vertov aproxima-se do conceito de conflito de Sergei Eisenstein. Os dois autores propõem uma teia de inter-relações para construção de significados que se sobrepõem, ou seja, a reunião de ideias potencializa novos significados. Essas teorias podem ser atualizadas a partir de Lev Manovich (2001), que refere-se à oposição entre os bancos de dados e as narrativas audiovisuais partindo de O Homem da Câmera (Dziga Vertov, 1929) rumo às produções audiovisuais contemporâneas. Na medida em que os objetos estudados configuram-se como audiovisuais que propõem uma articulação de conceitos através da rede, os pensamentos de Eisenstein, Vertov e Manovich servem como base para observar a montagem não mais em uma timeline isolada.



A matéria prima das obras citadas não se restringe ao material captado pelo produtor/realizador. A produção audiovisual contemporânea pode contar também com uma vasta quantidade de vídeos, fotos e áudios que estão disponíveis na Internet. Conforme a democratização dos meios de produção, a figura do produtor audiovisual parece ceder lugar à própria rede que se enuncia em seu fluxo e através da produção de conteúdo pelos próprios elementos/pessoas que a compõem. Os trabalhos artísticos citados exemplificam possibilidades de produção online. Incorporam mecanismos de compartilhamento, indexação e busca. Também são importantes para repensar o espaço de exibição: não mais apenas uma tela, seja a do cinema ou a do computador.
Bibliografia

AUMOUNT, Jacques e outros. A estética do filme. Campinas, SP: Papirus Editora , 2006



BAMBOZZI, Lucas. YouTAG sobre. 2008. Disponível em http://www.youtag.org/sobre.html. Acesso em 02abr.2011.



______. Microcinema e outras possibilidades do vídeo digital. São Paulo, 2007.



EISENSTEIN, Sergei. A Forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.



MACHADO, Arlindo. O sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no ciberespaço. São Paulo: Paulus, 2007.



MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge: MIT, 2001.



VERTOV, Dziga. NÓS – variação do manifesto. IN: XAVIER, Ismail (org). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1991a.



VERTOV, Dziga. Extrato do ABC dos Kinoks. IN: XAVIER, Ismail (org). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1991b.



VESNA, Victoria (org.). Database Aesthetics: Art In The Age Of Information Overflow. EUA: Minnesota University Press, 2007.