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  Título
Documentário e animação em Dossiê Rê Bordosa e Creature comforts
Autor
Jennifer Jane Serra
Resumo Expandido
O documentário animado, produção híbrida de animação e documentário, apresenta a combinação do discurso documental com estratégias narrativas próprias do cinema de animação (como simbolismo, metamorfose, performance etc.), de tal forma que não é possível determinar a qual gênero esse tipo de produção pertence, haja vista que ele é, ao mesmo tempo, filme de animação e filme documentário. Tomando o documentário como um discurso assertivo sobre o mundo em que vivemos, consideramos que no documentário animado o uso da animação justifica-se não por ela ser um recurso estético, mas antes, por ser através dela que o filme propõe um discurso sobre o mundo real, de uma forma que não seria possível através do uso exclusivo de imagem live-action (imagens reais). A união entre animação e narrativa documental, entretanto, não é pacífica, mas carregada de tensão, pois a natureza subjetiva da animação entra em conflito com a visão ainda comum de documentário como um modo de discurso objetivo e associado a uma noção estrita de realismo. Considerando a relação entre documentário e animação a partir do documentário animado, buscamos compreender como a animação pode ser utilizada para oferecer asserções sobre o mundo real através de estratégias narrativas que são particulares a este meio e que não são comuns em filmes documentários. Para tanto, propomos a análise de duas animações que utilizam elementos estilísticos próprios do cinema documentário: os filmes Dossiê Rê Bordosa (Cesar Cabral, 2008) e Creature Comforts (Nick Park, 1989). Produzido pelo estúdio inglês Aardman, Creature Comforts pode ser considerado um mockumentary, isto é, um filme em que eventos fictícios são apresentados em um formato de filme documentário, como se fossem eventos reais. O filme foi construído a partir do áudio original de entrevistas, sobre temas que são pertinentes tanto ao universo dos bichos como dos humanos, combinado com animação de bonecos de animais. O resultado é uma obra na qual as entrevistas parecem ser fornecidas por animais e não por pessoas, alterando o estatuto e o contexto dos depoimentos. O curta-metragem Dossiê Rê Bordosa, por sua vez, investiga as razões por trás da decisão do cartunista Angeli de extinguir uma de suas mais famosas criações, a personagem Rê Bordosa. O filme intercala entrevistas com personagens reais e com personagens fictícios criados pelo cartunista, dispondo-os em um mesmo universo diegético. Assim como Creature Comforts, Dossiê Rê Bordosa utiliza a técnica de animação de bonecos (stop motion) e o áudio original de entrevistas, porém, os depoimentos que apresenta podem ser reconhecidos como não-ficcionais a partir do modo de leitura que o filme convoca: uma leitura documentarisante. A comparação entre dois filmes de animação que dialogam com o discurso documentário pode ilustrar como o modo de leitura fílmica é determinada não pela forma ou pelos recursos estilísticos utilizados, mas sim em termos de propósitos e contextos. Como afirma Bill Nichols, diante de um documentário pressupomos seu status de não-ficção e a referência que ele faz ao mundo histórico, ao contrário da ficção, que se refere a um mundo imaginado pelo cineasta. É justamente essa relação com o mundo histórico que diferencia o documentário animado do filme de animação ficcional. Ao reconhecer que o discurso do filme tem origem em um sujeito com existência no mundo real, o espectador coloca em ação uma leitura documentarisante, isto é, ele lê o filme como um documentário. Não é, portanto, o engajamento da animação com o real ou o uso de recursos estilísticos próprios da narrativa documental ou ficcional que define o estatuto do filme, mas a distinção entre não-ficção e ficção deve ser estabelecida a partir do compromisso que o filme estabelece com o mundo em que vivemos.
Bibliografia

NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. Campinas: Papirus, 2005. ODIN, Roger. De la fiction. Paris: De Boeck, 2000. RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal... O que é mesmo Documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008. WARD, Paul. Documentary: the margins of reality. Londres: Wallflower Paperback, 2005. WINSTON, Brian, Claiming The Real II, Documentary: Grierson and Beyond. Londres: BFI, 2008. WELLS, Paul. Understanding Animation. Londres, Nova Iorque: Routledge, 1998.