ISBN: 978-85-63552-07-5
| Título | Cinema de ficção: do deslocamento discursivo à intervenção política |
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| Autor | ANA CAROLINA ALVES LUZ PINTO |
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| Resumo Expandido | Não é de hoje que se discute a relação entre cinema, estética e política. Glauber, melhor do que ninguém, nos iniciou mais seriamente nessa discussão. Quarenta anos depois, o que sobrou desse debate? A partir de quais elementos podemos considerar o cinema político contemporâneo? Centrando a análise na ficção cinematográfica, a proposta parece paradoxal: como conciliar questões inerentes ao político, domínio explicitamente amarrado à realidade concreta, objetiva; e aquelas condizentes com a ficção, criadora de mundos que a priori não existem?
O importante ao observarmos um objeto semiótico (um filme por exemplo) é a maneira pela qual o compreendemos politicamente. Para isso, apelamos para uma série de elementos que configuram esse objeto: condições de produção e recepção, linguagem e discurso, hegemonias em jogo, aspectos formais e estéticos. Defendemos que um objeto semiótico é uma forma de tradução do político (no nosso caso através da linguagem cinematográfica) e uma modalidade de expressão discursiva que circula no espaço sócio-político. Também podemos considerar o objeto semiótico como uma espécie de avatar (Macé) na medida em que ele se apresenta como forma particular de representação da “realidade” do mundo social. Destarte, o discurso fílmico se articula comunicacionalmente com o espaço sócio-político (que também é discursivo) através de representações sociais, contribuindo consequentemente para sua mutação. No entanto, a questão levantada por essa proposição refere-se às condições necessárias para que uma narrativa ficcional (discurso) se articule efetivamente com o espaço sócio-político – o discurso ficcional participando de um “espaço publico parcial” (Miège). Uma primeira pista para a passagem da ficção ao político, anunciada por Jean-Pierre Esquenazi (Colóquio 'Images, médias et politique', Paris, novembro 2010), indica que sendo o espectador sensível à uma interpelação (enunciado que coloca em questão a identidade e a situação do indivíduo no seu contexto habitual) com origem na realidade social, ele entenderia o discurso ficcional enquanto réplica (política) a esta interpelação. Desta maneira, segundo o autor, se houver uma identificação do discurso ficcional enquanto réplica política, teremos uma intervenção política. Nosso raciocínio nos leva mais longe. Consideramos que uma efetiva intervenção política apenas é possível com o deslocamento discursivo dos atores em jogo. Ou seja, com a transferência das negociações presentes no discurso ficcional para o discurso político. Sendo assim, ao ser interpelado por determinada questão de ordem prática, vinda da realidade social, o espectador confere ao discurso ficcional o caráter de réplica, de resposta, de imitação criativa (mimesis), de metáfora (Ricoeur) que possibilita a transposição dos espaços ficcional e sócio-político e o consequente deslocamento de atores (e de seus discursos) de um espaço à outro. A noção de réplica vem se associar à uma das dimensões da resistência enquanto “lugar de oposição”. Sendo assim, baseada na relação entre tempo e narrativa, essa comunicação visa enfatizar a conexão existente entre “espaço e narrativa”, como complemento às idéias de Paul Ricoeur. As recentes produções brasileiras “Tropa de Elite 2” (2010), “Cinco vezes favela” (2010) e “Cidade de Deus” (2002) são alguns exemplos que pretendemos trabalhar durante nossa comunicação. A primeira delas, aliada aos acontecimentos de novembro de 2010 no Rio, nos oferece um vasto campo de análise no que diz respeito ao deslocamento do discurso ficcional ao espaço sócio-político; ao deslocamento do lugar do “diretor” José Padilha ao lugar do “cidadão” José Padilha – cujo discurso passou a ser reconhecido pela mídia como de autoridade nas questões de Segurança Pública. Acreditamos que esses exemplos possam elucidar alguns dos processos pelos quais a ficção, considerada pragmaticamente como ficção em si mesma, venha interferir politicamente no espaço sócio-político da sociedade carioca. |
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| Bibliografia | BECKER, H. Telling about Society. Chicago: Chicago Univ. Press, 2007
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