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  Título
Filme e retrato: analogias e incorporações
Autor
Cláudia Cardoso Mesquita
Resumo Expandido
Parte de uma tendência ampla de particularização do enfoque e ancoragem pessoal do olhar que se nota no cinema brasileiro recente, muitas biografias audiovisuais foram lançadas no país nos últimos quinze anos, tanto no cinema como na TV – a ponto de vislumbrarmos o que François Dosse chamou, para outro contexto, de “febre biográfica”, notável também em outras narrativas midiáticas. Não que o gesto biográfico seja inédito no cinema documental; sabemos que ele é justamente um dos mais recorrentes e mesmo tradicionais. No entanto, alguns filmes recentes tem investido de novas potências e elementos críticos o “retratar”, buscando compartilhar com o espectador reflexões que colocam em crise, por exemplo, o tradicional historicismo (pensado aqui, muito simplesmente, como série de procedimentos narrativos que apresenta a história de vida de maneira cronológica, ordenada, fatalista, quase como se a história do indivíduo “se contasse a si mesma”).

Outro atributo que os relaciona é a reflexividade – são filmes que não apenas buscam apresentar seus personagens e suas histórias, como desenvolvem reflexões manifestas sobre o “retratar”. Essas obras se pensam no percurso, colocando em questão suas estratégias e construtos, e obliterando a ilusão de acesso privilegiado e não mediado, pelo espectador, à história íntima dos retratados. Esse gesto se alia às formas como se buscam passagens entre memória individual e história pública, entre a vida privada e sua historicidade. São movimentos que engendram construções abertas, lacunares, que não operam sob o regime da totalização nem da “mesmidade” (em termos de produção de uma “identidade” para o retratado). A partir do retrato do outro, em suma, não se busca fixar-lhe uma identidade (ou mesmo reter-lhe a singularidade), mas estabelecer conexões, movimentos plurais, derivas e itinerâncias de sentido. Os indivíduos, como escreveu Ilana Feldman, não se reduzem nesses ensaios a “invólucros de identidade”, mas se expõem “à intensidade de conexões, diferenças e relações” (2008: 71).

Com esta comunicação, proponho prolongar tal discussão, aproximando alguns filmes biográficos recentes da noção de retrato, e examinando as maneiras como se apropriam dos retratos fotográficos. Ao lançar mão da noção de retrato, não pretendo assimilar totalmente os filmes de que trato a esse gênero (na pintura ou na fotografia). Mas sim emprestar algumas discussões (e sobretudo desconstruções) acumuladas em torno das propriedades do retrato – de maneira a chamar, por analogia e com licença poética, certos filmes de retratos, quase como fazendo do termo um atributo. Em primeiro lugar, quero lembrar a idéia de que o retrato, ao contrário de afirmar (ou confirmar) a auto-suficiência, plenitude e coerência do modelo, é uma imagem que remete a sua ausência – no sentido de que permite ao indivíduo “assegurar-se da própria identidade por intermédio de um olhar exterior”, como lembra Schaeffer, citado por Fabris (2004: 51). Retrato como espécie de “prótese visual”, portanto, em que a identidade é efeito de uma relação e de uma construção, de uma representação que inscreve, para além de uma individualidade irredutível, uma atitude teatral, um colocar-se em pose como inserir-se num sistema simbólico – no qual mesmo a “naturalidade” é um ideal cultural codificado (Ibidem: 35-36).

Sem perder de vista a indicialidade da imagem fotográfica, quero herdar as várias desconstruções do retrato como mimese, tal como se nota no trabalho de artistas que refletiram, pela apropriação crítica do gênero, sobre a identidade como encenação, a realidade como efeito de construções, e o retrato como afirmação de linguagem. Algumas dessas reflexões se atualizam nos filmes biográficos recentes a que me refiro. Em sua análise, vou privilegiar as maneiras como se utilizam de retratos fotográficos, entre outras imagens de arquivo. Vou tratar de Diário de Sintra e Vida (P. Gaitán), Acácio (M. Rocha) e Remições do Rio Negro (E. Souza e F. Bizarria).
Bibliografia

AVELLAR, José Carlos. O chão da palavra – cinema e literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2007.

BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas volume 1. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

BRASIL, André. “Carapiru-Andrea, Spinoza. A variação dos afetos em Serras da desordem”. In: Devires – Cinema e Humanidades. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. v.5 n.2 (2008).

FABRIS, Annateresa. Identidades virtuais – uma leitura do retrato fotográfico. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004.

FELDMAN, Ilana. “Na contramão do confessional: o ensaísmo em Santiago, de João Moreira Salles, e Jogo de cena, de Eduardo Coutinho”. Devires – Cinema e Humanidades. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. v.5 n.2 (2008).

MESQUITA, Cláudia. “Retratos em diálogo”. In: Novos Estudos Cebrap 86. SP: Cebrap, 2010.