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  Título
Análise crítica do discurso da série As primeiras 48 horas
Autor
Carlos Eduardo Pereira
Resumo Expandido
A série “As primeiras 48 horas” (The first 48 hours), exibida no Brasil pelo canal A&E, constitui-se de várias investigações criminais. É um documentário que registra o trabalho de grupos de investigadores policiais, que tentam descobrir os autores de homicídios em quarenta e oito horas. O programa parte do pressuposto de que se um criminoso não for identificado até as quarenta e oito horas após um crime, dificilmente será descoberto. Podemos pensar que nada é mais transparente e naturalizado no discurso de uma série como esta, já que, por ser documental, poderia ser um registro neutro da realidade. Para entendermos o que se esconde por trás desta transparência, utilizaremos a análise crítica do discurso, mais especificamente as formulações de Norman Fairclough (2001), em sua teoria social do discurso.

A referida teoria reúne métodos de análise de linguagem, a partir da lingüística e da análise do discurso, utilizando também a pragmática e as ciências sociais.

Existem diversos conceitos de discurso, mas para o autor em questão, o termo combina um sentido socioteórico com o sentido “texto e interação” de uma análise de discurso mais linguisticamente orientada. Para a sua análise do discurso ele cria um modelo tridimensional composto pela prática social, a prática discursiva e o texto propriamente dito.

Para a nossa análise, o conceito mais pertinente é o do discurso como prática social, ou seja, o discurso e sua relação com a ideologia e o poder. O referido autor compreende o poder como hegemonia, e uma evolução das relações de poder como luta hegemônica.

As ideologias se tornam muito eficazes quando naturalizadas nos discursos, atingindo um status de senso comum. As práticas discursivas são investidas ideologicamente quando incorporam significações que levam à manutenção ou reestruturação das relações de poder.

A série geralmente acompanha duas investigações de dois crimes distintos, em duas cidades americanas, por dois grupos de investigadores. Porque duvidar da naturalidade e da transparência deste discurso? Talvez devamos nos ater ao que Fairclough menciona como ideologia “embutida”, “naturalizada” nos discursos, de forma a se esvanecer no “senso comum”; e também de que forma essa ideologia contribui para a manutenção de um status quo da hegemonia.

Apesar de o programa documental ser um “retrato real” dos acontecimentos, o que vemos é que a enorme maioria dos crimes é cometida por afro-americanos. Cerca de 90% das vítimas, suspeitos e criminosos são afro-americanos, outra parcela é constituída por latinos e apenas em um dos programas assistido a vítima e o criminoso eram brancos. Apesar de brancos, não podemos considerá-los da “maioria” social, econômica e política americana, pois eram homossexuais e usuários de drogas. Como a série é um documentário, somos levados a crer que apenas as minorias raciais, étnicas e econômicas cometem crimes nos Estados Unidos.

Os crimes retratados no programa se referem à violência urbana, motivação vã, dinheiro, drogas. Até mesmo o sexo e o amor, outros elementos deflagradores de assassinatos, estão quase ausentes na série. O programa trabalha com a banalização e espetacularização da violência. Existe também um aspecto tecnológico forense na elucidação dos assassinatos, conforme o texto publicitário da série, mas que é pouco relevante e praticamente inexeqüível em 48 horas, como veremos na confrontação com outras séries do gênero, quer documental ou de ficção.

Fazendo uma rápida comparação entre “As primeiras 48 horas” e outras séries do gênero, se torna mais evidente o caráter ideológico do seriado. No que tange a violência racial, não se trata da violência sofrida por indivíduos de raças minoritárias nas relações de poder, mas sim o que esses indivíduos podem interferir de maneira maléfica no sistema, quando cometem crimes, sendo necessária a repressão pelo aparato policial.

Bibliografia

FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001. 316 p.



JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. São Paulo: Editora Cultrix, 1977. p. 118 – 162.



DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Editora Rocco Ltda., 1997. p. 01 – 173.



LABOV, William. Academic ignorance and Black intelligence. Estados Unidos: The Atlantic Monthly, Junho, 1972. s. p. Disponível em www.theatlantic.com/issues/95sep/ets/labo.htm



IWASSA, Hiroco Luíza Fujii. Black English: sob a perspectiva da sociolingüística e da tradução. Dourados: Anais do III CELLMS, IV EPGL e I EPPGL – UEMS, 2007. 9 p. Disponível em www.uems.br/cellms/.../05%20-%20BLACK%20ENGLISH.pdf



http://www.aeweb.tv/br/programas/crime-investigation/first-48.html?mode=laserie